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segunda-feira, 8 de março de 2010

CORINTHIANS E SÃO PAULO DE VOLTA AO G4

Com as vitórias sobre São Caetano e Ponte Preta, Corinthians e São Paulo, respectivamente, voltaram a figurar entre os quatro melhores times do Paulistão 2010. Se a primeira fase terminasse hoje, os confrontos das semifinais seriam Santos x Corinthians e Santo André x São Paulo, com vantagem para os dois primeiros.

Mas ainda restam seis rodadas e muita coisa pode mudar até o dia 7 de abril - data da última rodada. Praticamente classificados, o Santos, que arrancou um suado empate com a Lusa nos últimos minutos - dessa vez, sem nenhuma gracinha de Neymar -, e o Santo André, que mais uma vez provou porque é um dos melhores da competição ao golear o Botafogo, esperam pela definição das últimas duas vagas. Corinthians e São Paulo são, obviamente, os favoritos, mas nessa briga ainda sobra espaço para Botafogo, São Caetano, Portuguesa, enfim... Quanto ao Palmeiras, embora ainda restem esperanças, o melhor é começar a se concentrar na Copa do Brasil.

Depois de uma apresentação pífia no meio de semana, o Corinthians, sem seus principais jogadores, apresentou uma melhora bem significativa. Ainda não foi do jeito que a torcida e o treinador esperam, mas os três pontos deram ao grupo uma certa tranquilidade, pelo menos até o próximo confronto. Daí sim, o Timão terá uma verdadeira pedreira pela frente: o Ramalhão, que vem de sete vitórias consecutivas. Teste melhor impossível, principalmente depois de um jogo importante pela Libertadores que acontece no meio da semana.

José Donizetti Morbidelli
Jornalista
jdmorbidelli@estadao.com.br
http://jdmorbidelli.zip.net

terça-feira, 11 de agosto de 2009

MITOLOGIA E CRISTIANISMO - ENTRE DEUSES E HEROIS

Desde suas origens na Antiguidade, a mitologia fascina o ser humano e confunde-se com a religiosidade, inclusive a fé cristã

José Donizetti Morbidelli
Jornalista

Os deuses do Olimpo devem estar em polvorosa. Em pleno século 21, na Era da Tecnologia, cada vez mais pessoas se interessam pela mitologia. Divindades, heróis e aventuras épicas que foram se acumulando ao longo da história da humanidade constituem um riquíssimo acervo de mitos, que, com base real ou não, povoam o imaginário das civilizações. E, tal como os imaginários habitantes do Monte Sagrado da Antiga Grécia, que envolviam-se com os mortais a ponto de gerarem filhos com eles, os mitos do passado vez por outra ressurgem com força, estimulando a arte, a crença e a imaginação de muita gente ao longo dos tempos. O segredo do mito é justamente este – com o passar dos anos, sua origem se perde no passado, a ponto de ninguém mais saber se referem-se a fatos reais ou não. Mas pouco importa: o valor do mito não está necessariamente na sua veracidade, mas na importância para o imaginário coletivo.
Num dos capítulos de O Livro de Ouro da Mitologia (Ediouro), escrito no século 18, o norte-americano Thomas Bulfinch apresenta três teorias defendidas por filósofos para explicar a origem da mitologia: a teoria alegórica, ou seja, simbólica e não condizente com a verdade propriamente dita; a teoria histórica, que, ao contrário da anterior, defende a hipótese dos mitos terem, de fato, existido em determinadas épocas; e a teoria bíblica, que pressupõe que as lendas mitológicas tenham se originado nas narrativas das Escrituras – embora a mesma tese também admita que as histórias tenham sido distorcidas no decorrer dos séculos. Independentemente de que teoria se aproxime mais da verdade, o que não se pode negar é que até hoje deuses e heróis da Antiguidade greco-romana ainda despertam enorme interesse, seja entre estudantes, pesquisadores e até teólogos – prova disso é que o livro de Bulfinch tem sido adotado por escolas e universidades em todo o mundo.
Se cada interessado por mitologia tem um motivo peculiar para se deixar levar por essas histórias fantásticas, o propósito que os move parece ser bastante similar, ou seja, tentar explicar o mundo contemporâneo alicerçando-se em supostos acontecimentos ou meras narrativas ocorridas num tempo não identificado, e que a literatura tratou de eternizar como lendas, ou melhor, como mitos. Etimologicamente, a palavra grega teogonia quer dizer origem dos deuses. Na literatura, Teogonia, de Hesíodo – o mais antigo entre os poetas gregos –, assim como Ilíada, de Homero, são as obras mais estudadas pelos especialistas no anseio de explicar a origem dos deuses e heróis da mitologia grega, isso desde o século 9 a.C. Passados quase três milênios, os estudos iniciados lá no passado ainda suscitam muitas dúvidas, e talvez o exemplo mais latente dessa incerteza seja se a mitologia pode, de fato, ser considerada uma religião. Para Jorge Pinheiro, pós-doutor em teologia e pastor da Igreja Batista de Perdizes, zona oeste de São Paulo, a resposta é não, embora as duas vertentes muitas vezes caminhem lado a lado: “Dos mitos restaram somente os rituais religiosos, os mistérios das seitas e a enorme influência de toda uma história da qual permanecem apenas os rastros”.


Conteúdo moral – Mestre em Ciências das Religiões, a advogada Maria de Fátima Moreira de Carvalho, que congrega na Igreja Assembleia de Deus de João Pessoa (PB), compactua com a afirmação do teólogo: “Mesmo que se refiram a deuses, mitologia não pode ser considerada religião; refere-se apenas a narrativas arcaicas que nos transmitem algum ensino moral”, afirma. Pode-se atribuir o início dessa desmitificação de deuses e ídolos gregos ao apóstolo Paulo, com seu célebre discurso realizado em Atenas, relatado no livro de Atos. Na capital dos filósofos do Mundo Antigo, ele mostrou-se perplexo com o ambiente de idolatria reinante naquela sociedade, a ponto de as pessoas adorarem a deuses desconhecidos. Foi justamente essa a deixa que ele aproveitou para falar-lhes de Jesus: “Esse, pois, que vós honrais sem o conhecer, é o que vos anuncio” (Atos 17.23).
Segundo o apóstolo, a religiosidade dos atenienses era imperfeita, embora aproveitável. Apesar dos atenienses continuarem militando nos caminhos da filosofia pagã, o discurso teve lá seus resultados positivos, com várias pessoas se convertendo – entre eles, Dionísio, membro da aristocracia local e integrante do prestigiado Areópago de Atenas. No entender de Jorge Pinheiro, mitologia e cristianismo seguem por caminhos bastantes díspares: “A cultura grega apresentou uma leitura mítica do destino, que traduzia a maneira de pensar e viver o helenismo – período da história grega compreendido entre os anos 323 e 30 a.C. Já a fé cristã embute a ideia de que o mundo é uma criação divina, a vitória da crença na perfeição do ser em todos seus aspectos sobre o medo trágico e a matéria que resiste ao divino”, aponta.
Mitos ou não, simbolismos e similaridades envolvendo mitologia e cristianismo é o que não falta. Um dos mais antigos enigmas da história da humanidade, a lenda do cálice sagrado – ou Santo Graal –, que algumas doutrinas apontam ter sido usado por Jesus na sua última ceia e no qual, supostamente, José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Cristo, é um exemplo do que muitos classificam como mitologia cristã. Uma segunda versão da lenda defende que Maria Madalena teria sido a detentora do cálice – afinal, segundo a Bíblia, ela era a única mulher além de Maria presente no Calvário durante a crucificação. A lenda transcendeu os séculos subsequentes e, na Idade Média, a busca ao cálice sagrado se tornou uma obsessão para os cavaleiros medievais. Até o cinema rendeu-se à história, em produções como Indiana Jones e a Última Cruzada, terceiro filme da célebre série de aventura do herói Harrison Indiana Jones Ford, de Steven Spielberg, e O Código Da Vinci, adaptação do best seller de Dan Brown.
“O cálice sagrado é um exemplo típico de mitologia cristã, mas não é bíblico; deriva das doutrinas cátaras”, explica Maria de Fátima. “O Graal foi uma reinterpretação de um mito celta que se referia a um prato de poderes divinos que revestia a comida posta sobre ele.” Um dos principais pilares que sustentava a religião dos cátaros – povos que ocupavam o norte da península itálica no século 12 e que se opunham ao cristianismo – era a crença de que Jesus não era filho de Deus, mas um importante profeta.


Cavaleiros da cruz – Por sua vez, a Ordem dos Cavaleiros Templários, uma espécie de organização fundada no mesmo século 12, em Jerusalém, por cavaleiros franceses para proteger os reinos cristãos da invasão dos mouros, realmente existiu. Contudo, eles foram bastante mitificados ao longo do tempo. A ação perpetrada pelos templários marca o início das grandes expedições de caráter religioso e militar – historicamente chamadas de Cruzadas – para impedir o domínio das terras bíblicas pelos muçulmanos. No início do século 14, Felipe IV, então rei da França, ordenou a destruição da organização, fazendo com que os cavaleiros remanescentes se refugiassem em Portugal. Extinta, a Ordem dos Cavaleiros Templários cedeu lugar à Ordem de Cristo, tendo como seu principal fundador o papa João XXII. A experiência marítima adquirida pelos templários nas muitas peregrinações à Terra Santa colaborou para que os portugueses, a partir do século 15, aventurassem-se por mares nunca antes navegados, no processo de expansão que os levou ao Oriente e à América, culminando com a descoberta do Brasil.
Na tentativa de explicar as origens da mitologia por um viés bíblico, como exposto no livro de Bulfinch, os gregos foram muito além dos limites determinados entre a razão e a imaginação, e apontam vários personagens citados nas duas correntes – mítica e religiosa – como bases de sustentação para suas argumentações. Para eles, Deucalião nada mais é do que um segundo nome de Noé, o homem que, segundo o livro bíblico do Gênesis, salvou a humanidade e a vida animal do Dilúvio. A justificativa para a comparação é, aparentemente, simples: depois que Zeus – considerado o pai de todos os deuses na mitologia grega – resolveu acabar com a maldade da face da terra com uma enchente de proporções globais, Deucalião e sua mulher, Pirra, foram aconselhados a construir um barco que lhes garantisse a sobrevivência. E as coincidências se estendem a outros heróis: Hércules, por exemplo, seria identificado com Sansão; Árion, com o profeta Jonas. Já o dragão guardião da macieira dos pomos de ouro, cultivada no jardim das três deusas Hespérides, seria ninguém menos que a serpente maligna que enganou Eva.
Diante de tantas confrontações, há até quem ouse comparar Zeus com Deus, o criador do universo na concepção cristã. Afinal, dentro de cada uma das concepções, eles representam o Poder supremo. Não é o caso de Jorge Pinheiro, que contrapõe citando as torturas sofridas pelos judeus no livro apócrifo de Macabeus na década de 170 a.C., que preferiam a morte a fazer sacrifícios ao deus grego. “O que tem o Deus Eterno, criador dos céus e da terra, com o Zeus olímpico? Nada”, resume o pastor.


Mitos e temores – Se geograficamente a Grécia e a Itália são separadas apenas por algumas milhas do Mar Mediterrâneo, as relações históricas entre as duas nações é ainda mais estreita e vem desde a Antiguidade. Desde o século oitavo antes da Era Cristã, a cultura grega, e principalmente sua mitologia, exerce influência direta sobre a arte romana, com vários heróis reproduzidos com as mesmas características estéticas. De diferente, mesmo, apenas a nomenclatura, traduzidas do grego para o latim. A influência grega exercida sobre a arte romana chegou ao Renascimento – período compreendido entre os séculos 13 e 17, que marca a transição da Idade Média para a Idade Moderna. Até mesmo para representar a religião cristã os italianos foram buscar inspiração no classicismo grego, cuja primazia era representar seus personagens históricos e mitológicos completamente nus – daí a expressão tão comum nos dias de hoje, o nu artístico.
Rafael Sanzio, um dos principias artistas da época, e que traz a suavidade como principal característica em suas obras – como A Ressurreição de Cristo, pertencente ao acervo do Museu de Arte de São Paulo, o Masp –, e Michelangelo, o gênio que no século 16 cobriu de afrescos o teto da capela Sistina, no Vaticano, também recorreram a aspectos mitológicos em suas obras. O mestre florentino ainda legou à posteridade maravilhosas esculturas, como a representação “quase viva” do herói bíblico Davi e o colossal Moisés, que hoje encantam turistas na Itália. De tão perfeita, conta-se que, ao finalizar a obra, o próprio artista, em momento de êxtase, teria batido com o martelo no joelho da escultura e gritado: “Perché non parli?”.
Fundada nos anos 1940, a Coletividade Helênica de São Paulo é uma entidade filantrópica que trabalha no sentido de preservar e divulgar as tradições e a cultura helênica por meio de atividades sociais e assistenciais. Ex-presidente da associação, Stayros Kyriopoulos, cristão ortodoxo, afirma que são muitos os aspectos e manifestações do mundo contemporâneo que ainda remetem à cultura grega, principalmente à mitologia. “Na minha opinião, o teatro, por exemplo, é uma das atividades que mais contribuem para a preservação cultural dos mitos gregos”, diz. Já para a doutora Maria de Fátima, o maior legado deixado pela mitologia para a humanidade foi um impulso causado no pensamento filosófico. “Foi justamente para contestar a existência dos deuses mitológicos que os filófosos pré-socráticos se manifestaram, dando início aos movimentos filosóficos no Ocidente”, atesta a doutora. “Do ponto de vista cultural, a mitologia nos mostra o quanto o pensamento grego, antes do cristianismo, era cercado de temores”, completa.
Contudo, para os mais aficionados por mitologia e que procuram na arcaica cultura grega uma explicação lógica para compreender melhor alguns aspectos do mundo contemporâneo, o pastor Jorge Pinheiro deixa um alerta, ou melhor, um pensamento para reflexão: “O ser humano atravessou o mito em direção à razão e ao pensamento científico; portanto, não há porque voltar a ele”, conclui o teólogo.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 134

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O VERDADEIRO CAMINHO DAS ÍNDIAS

Novela da Globo e filme premiado chamam a atenção para o país dos 300 milhões de deuses

José Donizetti Morbidelli

A novela Caminho das Índias, atual folhetim global das oito, está despertando em todo o Brasil o interesse pela rica cultura indiana. Nação de dimensões continentais do sul da Ásia, a Índia tem uma história milenar, uma população enorme – com 1,1 bilhão de habitantes, só perde para a China em quantidade de gente – e um sistema religioso que mistura devoção, misticismo e superstições. Quando os navegantes portugueses, sob o comando do célebre Vasco da Gama, aportaram naquelas terras, na virada dos séculos 15 e 16, o hinduísmo já era a principal confissão religiosa dos indianos. Uma das mais antigas religiões do mundo, ela remonta a 1500 a.C., época em que se formou o Império hindu. Da época das grandes navegações para cá, muita coisa mudou. A Índia enfrentou o colonialismo português e britânico, assistiu a sangrentas guerras étnicas e afundou na miséria; ao mesmo tempo, conquistou sua independência, desenvolveu um forte aparato tecnológico e militar e hoje é um dos quatro grandes países emergentes do mundo. Mas a fidelidade dos indianos para com seus credos continua em alta. Atualmente, o hinduísmo tem cerca de 1 bilhão de seguidores, números que o coloca como a terceira religião com mais seguidores no planeta, atrás apenas do cristianismo e do islamismo.
"Para alguns historiadores das religiões, o hinduísmo surgiu como um grito de liberdade que estava preso na garganta dos indianos havia milhares de anos, um grito contra a opressão ariana brâmane", explica em seu livro História das Religiões e a Dialética do Sagrado (Editora Madras) o historiador Leonardo Arantes Marques. "Havia uma necessidade popular de revalorizar o sagrado por intermédio de uma ‘nova’ hierofania, em que uma experiência mística, íntima e pessoal pudesse ser acessível a todos e não a uma classe dita privilegiada, como acontecia à religião dos brâmanes", complementa. Outro aspecto inegável que desperta a atenção da sociedade mundial para com os indianos é sua diversidade cultural e religiosa. No país convivem centenas de povos e etnias, e o panteão hindu abriga milhões de deuses, desde a trindade suprema formada por Shiva, Vishnu e Krishna, até divindades menores, que segundo a crença local podem encarnar em ratos e até pedras.
Sociedade com costumes incompreensíveis para os ocidentais, a Índia desperta um misto de curiosidade e fascinação. No ar desde o mês de janeiro, Caminho das Índias, de Glória Perez, não foge ao lugar-comum: tramas que envolvem dinheiro e poder, triângulos amorosos, infidelidade conjugal e a eterna luta entre o bem e o mal. No centro do enredo, o drama de um amor impossível de se concretizar devido às diferenças sociais entre o casal protagonista, vivido pelos atores Márcio Garcia e Juliana Paes – eles integram castas diferentes, o que, na Índia, significa exclusão total. Impossível na vida real, mas não na ficção, o caso de amor é o fio condutor da história, que tem muitas locações ambientadas lá mesmo e o resto aqui, em meio a cenários e figurinos deslumbrantes. Afora os sofismas, a novela não deixa também de revelar algumas tradições do povo indiano, tanto que boa parte da equipe trabalhou por dias a fio em algumas importantes cidades do país, incluindo a capital Nova Déli. "É uma estranha sensação viver numa terra que mistura deuses com excrementos", declarou o ator José de Abreu, um dos principais nomes do elenco, em seu blog. Na novela, ele interpreta um sacerdote brâmane, religioso da mais alta camada hierárquica do hinduísmo.

Cultura e espiritualidade – "Na verdade, não existe religião hinduísta; este nome foi dado pelos ingleses na época da colonização para poder definir algo que eles não tinham como classificar", explica Erick Schulz, diretor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, de São Paulo. A instituição promove atividades para proporcionar orientações sobre a cultura e as práticas de saúde indianas. Quanto à novela, ele acredita que o roteiro tem sido fiel às tradições do país, mas faz uma ressalva: "Alguns preconceitos que vêm sendo abordados não têm nada a ver com a religião indiana; aliás, são poucos os momentos em que a religiosidade hindu é mostrada na novela", aponta ele que, apesar de não ser indiano nato, foi criado de acordo com as tradições e ensinamentos típicos desde os primeiros passos. "Embora eu não concorde com algumas coisas que são mostradas ou faladas na novela, procuro entender que se trata de uma ficção, onde o autor tem liberdade para escrever o que quiser", emenda. "Nós, brasileiros, lutamos durante muitos anos pelo direito à liberdade de expressão, e conseguimos. Portanto, se nos sentirmos ofendidos podemos também ir aos meios de comunicação para desmentir o que a teledramaturgia mostra", finaliza.
Já para os crentes, que desde a novela Duas Caras estão meio ressabiados com a Rede Globo por causa de um personagem considerado bastante caricato e não condizente com o propósito evangelístico da Igreja, Caminho das Índias parece não incomodar. Embora a trama tenha a religião e o esoterismo como pano de fundo, é muito improvável o surgimento de algum personagem que possa acirrar novamente os ânimos dos evangélicos. "As relações existentes entre cultura e espiritualidade são motivos de muitos debates suscitados atualmente e têm alcançado uma grande parcela da sociedade. A teledramaturgia brasileira, especialmente a global, não está alheia a este viés e, por características próprias, tem um compromisso comercial de explorar o assunto. Muitas vezes, autores de novelas imprimem suas próprias pré-concepções desprovidas de um maior rigor factível, criando estereótipos que não condizem com a realidade mas podem entrar no ideário nacional como reais", opina Artur Eduardo da Silva Neto, teólogo e pastor da Igreja Evangélica Congregacional Aliança, de Recife (PE).
Apesar de não ter o hábito de ver novelas, o religioso costuma dissertar em seus artigos (www.artureduardo.com.br) temas de interesses comuns aos evangélicos. Ele ainda não descarta a possibilidade de a comunidade indiana também se sentir ofendida no decorrer de Caminho das Índias. "A forma como a novela está sendo conduzida é deficiente, porque não são levados em consideração aspectos importantes da cultura e religião daquele país, como o sistema de castas e as consequências quase insuportáveis que produz", explica. "Além disso, a pobreza e as diferenças sociais, que estão inegavelmente ligadas às condições religiosas e culturais dos indianos, parecem ser sistematicamente omitidas", conclui. Faz coro à opinião do pastor o escritor Leonardo Marques, que se autointitui um estudioso técnico e também não acompanha as novelas assiduamente. "Nas pouquíssimas vezes que vi algum capítulo, percebi que a trama distorce a realidade do país, principalmente no que se refere à religiosidade e castas. Eles mostram uma Índia linda e, ao mesmo tempo, preconceituosa ao extremo", diz. "Sempre que posso, corrijo a visão da novela para as pessoas que conheço. Afinal, atualmente a luta é pela igualdade de direitos e atendimentos", emenda.

"Mundos díspares" – Se a novela Caminho das Índias explora um lado que só parece existir nos contos de fadas, o longa-metragem Quem Quer Ser um Milionário (Slumdog Millionaire, 2008) – grande vencedor da última edição do Oscar, abocanhando nada menos do que oito prêmios, incluindo o de melhor filme, direção e roteiro – apresenta um quadro bastante diferente do mostrado na televisão, e ao que parece é o que mais se aproxima da realidade indiana. Na telona, as imagens de um país pobre, sujo e de visíveis desigualdades sociais, característica marcante do Terceiro Mundo. "O filme e a novela mostram dois mundos tão díspares que parecem não pertencer à mesma realidade", afirmou a jornalista Nilza Rodrigues para o Jornal de Notícias, um dos mais importantes de Portugal. "O ideal seria juntar as duas realidades, pois a Índia é, sem dúvida, um país de contrastes", completa ela, que nasceu em Moçambique mas foi criada segundo as tradições indianas.
Curiosamente, a produção cinematográfica indiana – conhecida como Bollywood, numa alusão a Hollywood, na Califórnia (EUA), meca do cinema mundial –, é a maior do mundo. São cerca de mil títulos lançados no mercado por ano, o dobro do produzido pelos Estados Unidos. O investimento – geralmente em roteiros de baixo custo – tem retorno garantido; afinal, a indústria emprega mais de 2 milhões de pessoas, fazendo do cinema a principal opção de lazer do povo: cerca de 70 milhões de telespectadores comparecem semanalmente às sessões. Claro que a maioria das películas é uma mistura bizarra de enredos açucarados, produções precárias e atores de desempenho sofrível.
Mas se os filmes nacionais são basicamente produzidos para suprir o mercado interno, cabe aos produtores estrangeiros o papel de divulgar a cultura indiana aos quatro cantos do mundo. Há exatos quinze anos, por exemplo, o londrino David Lean, com Passagem para a Índia (A Passage to India, 1994), expôs o conflito entre duas culturas – o imperialismo britânico e a tradição milenar do povo hindu. Já em Entre dois Mundos (Partition, 2007), o diretor Vic Sarin cutuca um vespeiro ao levar às telas a paixão nutrida por duas pessoas de crenças separadas por um ódio mortal – de um lado um soldado indiano, cansado dos horrores da guerra; e do outro uma muçulmana, desgarrada da família que rumou para o Paquistão. Nascido na Caxemira – região que é alvo de uma feroz disputa entre o país islâmico e a Índia, que já foram à guerra três vezes nos últimos cinqüenta anos e possuem arsenais nucleares –, Sarin conhece de perto o drama vivido por seus personagens. E agora, com Quem Quer Ser um Milionário, o inglês Danny Boyle, ao narrar a trajetória do garoto pobre e sua ascensão social relâmpago depois de participar de um programa de TV, explora também o drama das crianças pobres no país e os conflitos novamente desencadeados entre hindus e muçulmanos. Pelo que se vê, em todos os longa-metragens cujo foco é a Índia, a religião sempre aparece como um dos ingredientes mais importantes para prender o telespectador.

Seara grande – No Brasil, o número de seguidores do hinduísmo é insignificante. No Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a religião é inserida no grupo intitulado "outras religiosidades". Por sua vez, o cristianismo marca presença na Índia desde que o apóstolo Tomé, um dos discípulos de Jesus, teria, segundo a tradição, fundado diversas igrejas na região, ainda no primeiro século da Era Cristã. "Assim como temos a verdade judaico-cristã no ocidente, que muitos acreditam ser a única que pode levar à salvação, cada país desenvolveu ao longo dos anos suas verdades milenares", destaca Leonardo Marques. A propósito, a busca pela verdade já causou muito derramamento de sangue (ver box), principalmente na região da Caxemira. "Acima da questão religiosa está o interesse político, social e econômico", complementa o historiador.
Quanto aos cristãos, apesar de ataques desferidos contra igrejas e constantes ameaças sofridas pelos missionários, nas últimas décadas o evangelismo tem se intensificado, sobretudo no norte do país. Mesmo assim, em toda a Índia, a quantidade de cristãos ainda não passa de 2% da população nacional, boa parte deles, estrangeiros. O maior empecilho para o trabalho das missões advém do próprio governo, que embora passe ao mundo a imagem de democrático, restringe a liberdade de culto. Diversos estados têm até leis próprias e bastante rígidas quanto às opções religiosas, impedindo a conversão de hindus ao cristianismo.
Atuando desde os anos 1990, a Missão Horizontes é uma fundação cristã interdenominacional que tem como objetivo treinar e enviar missionários brasileiros a regiões onde o Evangelho tem sido pouco divulgado. Entre os países asiáticos, a Índia é um dos mais procurados pelos evangelistas, mesmo cientes dos perigos que os espreitam numa região constantemente ameaçada por conflitos e guerras civis. Quem esteve nessa linha de frente é o missionário Pedro Santana Cardoso de Castro, membro da Igreja Irmãos Menonitas de Curitiba (PR). Em sua passagem pelo continente asiático, muitos foram os resultados alcançados. "Permaneci quatorze anos na Índia; em Goa, onde fiquei por dez anos, fui fundador de um orfanato. No norte, passei quatro anos trabalhando com crianças carentes portadoras de HIV e rejeitadas pela sociedade indiana pelo problema das castas", relata. O missionário ajudou a abrir uma escola que atende essas crianças. Em mais de uma década de trabalho voluntário, ele afirma ter sido vítima, a exemplo de outros cristãos, de muito preconceito. "A cozinha do orfanato chegou a ser queimada. Já na região de Orissa, a perseguição imposta às igrejas destruiu praticamente todo o nosso trabalho", conta. Atualmente Pedro mora em Londres (Inglaterra), onde estabeleceu uma base missionária junto à Igreja Anglicana, mas constantemente viaja à Índia para divulgar o trabalho de missões, bem como orientar os novos voluntários. Por estar longe do Brasil, o obreiro ainda não teve a oportunidade de acompanhar nenhum capítulo da novela Caminho das Índias, mas assistiu e não cansa de elogiar o filme de Boyle. "Para mim, que trabalho com jovens e conheço bem a realidade do país, foi muito bom ter visto o filme Quem Quer Ser um Milionário. Com certeza, o diretor conseguiu retratar a sociedade do país exatamente como ela é", opina.
Treinar, capacitar e fortalecer o trabalho de campo são algumas das ações também perpetradas pela Missão Portas Abertas, entidade multinacional que luta pela liberdade religiosa. De acordo com a missão, que mantém bases e organizações associadas em dezenas de países, mais de 50 missionários, contando com os nativos, já chegaram a atuar no território indiano. Contudo, depois do assassinato de Laxamananda Saraswati, ocorrido em agosto do ano passado e posteriormente assumido pelos maoístas – grupo radical muçulmano ligado à rede terrorista Al-Qaeda –, os cristãos, até então tidos como responsáveis pela morte do líder hindu, foram duramente perseguidos e a violência explodiu no Estado de Orissa, região nordeste do país. Além de igrejas serem destruídas, mais de cem cristãos foram mortos e milhares ficaram sem suas casas, vendo-se forçados a se abrigar em campos de refugiados.
A perseguição religiosa diminuiu substancialmente a força-tarefa dos crentes no país, mas mesmo assim a ação missionária continua. Um pastor que, por motivos de segurança, não quis se identificar, revelou que o perigo é iminente, mas o trabalho está sendo satisfatório. "Alguns dos missionários têm recebido ameaças, inclusive de morte, mas continuam trabalhando firmemente para o Senhor. Apesar disso, muitos batismos estão sendo realizados em todos os estados, o que nos leva a crer que estamos na direção certa na nossa contribuição para a evangelização da Índia", revelou ao site portasabertas.org.br. De acordo com um levantamento realizado pelo mesmo ministério, atualmente a Índia ocupa a 22ª colocação quando o assunto é intolerância para com os cristãos ao redor do mundo.
Pelo jeito, são vários os caminhos que levam à Índia, seja pelo mar, no passado com Vasco da Gama, ou atualmente, com a teledramaturgia. Entretanto, para a Missão Portas Abertas, a única opção é mesmo a evangelização. Aliás, com o objetivo de divulgar a situação dos cristãos em face aos episódios de violência ocorridos no segundo semestre do ano passado na região de Orissa, a entidade criou uma página em seu site com o título Jesus é o Caminho para a Índia. Pois lá, no país de mais de 1 bilhão de habitantes e 300 milhões de deuses, a seara é enorme – e os ceifeiros, lamentavelmente, muito poucos.

Gêmeos hostis

Desde a política industrial expansionista promovida pelos países europeus – sobretudo a Inglaterra – a partir do século 18, a Índia sempre esteve envolvida em conflitos de ordem política e religiosa. Primeiro, a ação imperialista dos britânicos, maquiada por alegações humanitárias, assegurou à Coroa a supremacia sobre a região, até que o líder pacifista Mahtma Gandhi liderou o movimento político que resultaria na independência do país. Herói nacional, Gandhi acabou assassinado por um indiano 1948, um ano depois de ver sua nação livre do domínio estrangeiro.
Com a intensificação dos conflitos entre os dois principais grupos religiosos, os hindus e os muçulmanos, a Grã-Bretanha, vendo na disputa interna a possibilidade de não ter que abandonar a região de mãos abanando, propôs a divisão do território em dois países; assim, o lado muçulmano (oriental) deu origem ao Paquistão, e a outra parte, maior e com maioria hindu, permaneceu como Índia. Mas, se o acordo acalmou momentaneamente os ânimos, a paz definitiva ainda estava longe de se estabelecer. Surgiu, então, o problema da Caxemira, região tipicamente muçulmana mas, pelo acordo, anexada ao território indiano. Sua localização estratégica chamou a atenção de outras nações, como a extinta União Soviética e a China, que mantinha boas relações com o Paquistão.
Para evitar um conflito internacional generalizado, a Organização das Nações Unidas (ONU) foi obrigada a intervir na questão. Atualmente, detentora de dois terços da região, a Índia acusa os paquistaneses de promoverem um movimento separatista na Caxemira. O mundo acompanha preocupado o desenrolar das negociações. Tecnicamente em guerra, os dois países não vão abertamente às armas um contra o outro porque os dois lados alardeiam possuir a temível bomba atômica.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 133
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segunda-feira, 2 de março de 2009

OS PILARES DA TERRA - KEN FOLLET

Conspirações, batalhas e fé em plena Idade Média

José Donizetti Morbidelli

Considerado um dos maiores escritores em atividade e famoso por livros de espionagem como O Buraco da Agulha e A Chave para Rebecca, há exatos vinte anos o britânico Ken Follet surpreendeu seus leitores ao mergulhar de cabeça num tema para lá de inusitado. Um romance que contraria as lógicas e expectativas, que mistura ficção e realidade como se nada houvesse entre essas vertentes: a construção de uma catedral gótica no interior de uma Inglaterra totalmente feudal, em pleno século 12, sacudida por sangrentas batalhas pela sucessão ao trono de Henrique I.
Se a princípio o tema parece soar meio enfadonho, Os Pilares da Terra – que já vendeu mais de 14 milhões de exemplares, e é o favorito da famosa apresentadora americana Oprah Winfrey – conduz o leitor a uma viagem pelo passado, numa época conturbada, marcada pelo poder do clero e dos cavaleiros, pela ambição em busca do poder ditando as regras e, consequentemente, com a violência tomando proporções inimagináveis.
Em dois volumes bastante generosos, o livro transcende os limites de uma simples história medieval; é o relato de uma paixão desenfreada de um autor, despertada na década de 70 quando ele não passava de um simples repórter do London Evening News. Não se contendo em simplesmente admirar uma catedral em Peterborough, ele quis compartilhar essa experiência, transformando-a num romance.
Se o condutor da primeira parte da história é Tom Construtor – personagem que faz da humildade e determinação uma força preponderante para seus anseios –, a segunda metade é movida pelo amor entre Jack e Aliena – a bela princesa banida de suas terras, uma relação intensa e complicada, que parece naufragar nos mares inquietantes das conspirações até os últimos capítulos.
Cada situação paralela tem um poder imensurável de cativar o leitor e, como um quebra-cabeças, todas as peças se encaixam perfeitamente. Se Tom Construtor é o alicerce que sustenta o início da obra, cabe ao enteado e herdeiro de seus conhecimentos a concretização dos sonhos do padrasto. Difícil ficar impassível diante da frieza e tirania dos vilões, do senso de justiça do prior Philip – homem movido pela fé e pelo fervor de ver uma catedral em seu priorado – , e todos os personagens que gravitam em torno da trama.
Como um verdadeiro arquiteto dos tempos medievais, Follet explica minuciosamente os detalhes pitorescos das catedrais, como se ele próprio fizesse cada cálculo, traçasse cada linha, assentasse cada pedra. Mas engana-se quem imagina que essas tecnicidades tornam a leitura cansativa. Trata-se de uma verdadeira aula de história da arte, mesmo para quem não tenha a mínima noção de arquitetura gótica. E como uma grande catedral se ergue aos poucos, a história se arrasta no mesmo ritmo. Página por página, cada reviravolta deve ser degustada devagar, sem atropelos.
Os Pilares da Terra demonstra que o passado continua cada vez mais presente na imaginação. Desde a frase inicial (Os garotos chegaram cedo para o enforcamento) até seu desfecho, o leitor é contaminado com um turbilhão de fantasias e fatos reais. E, ao que parece, a ficção deverá ter novas nuanças. Afinal ainda neste ano, a trama de Kollet será transformada numa série de televisão pela produtora do diretor Ridley Scott (Blade Runner, Gladiador). E, ao que tudo indica, a continuação da obra – Mundo Sem Fim –, lançada no Brasil também pela Editora Rocco, deverá trilhar o mesmo caminho. Fica a questão: será que a continuação da saga fará justiça ao original?

Fonte: Revista Eclésia - Edição 132

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

LEI DA HOMOFOBIA: UMA LEI, MUITAS POLÊMICAS

Projeto da lei anti-homofobia, que tramita no Senado Federal, causa apreensão entre os religiosos

José Donizetti Morbidelli

Quando foi usado pela primeira vez, em 1972, pelo psicólogo americano George Weinberg em seu livro A Sociedade e o Homossexual Saudável, a palavra “homofobia” não chamou muito a atenção. Não era para menos – àquela época, a homossexualidade era ainda um comportamento restrito, quase marginalizado, que as pessoas fingiam não enxergar. Classificada como doença, a atração física entre pessoas do mesmo sexo era tratada como aberração. O tempo passou, as sociedades se transformaram e hoje quem se diz gay fala de sua própria opção com orgulho. Neste contexto, a tal homofobia, que é modernamente definida como aversão ao comportamento homossexual, passou a ser quase um impropério. E qualquer um que, por convicção pessoal, fé religiosa ou simplesmente liberdade de escolha se diga contrário a essa opção sexual corre o risco de ser visto como preconceituoso.
Pois aqui no Brasil, a questão pode ir bem além do simples choque de opiniões contrárias. Tramita no Senado Federal o projeto de lei 122/2006, apresentado pela ex-deputada federal Iara Bernardi (PT-SP) em 2001. A proposta já passou pela Câmara dos Deputados e agora está sendo avaliada pelas comissões internas do Senado, formalidade necessária antes de seguir para votação plenária. Se chegar a ser aprovado e sancionado pelo presidente da República, o projeto, também chamado de Lei da Homofobia, pode causar sérios problemas para quem discriminar pessoas homossexuais em função desta condição. A proposta tem pontos incontroversos, como a proibição à demissão de um funcionário pelo fato de ele declarar-se gay. Em contrapartida, pode criminalizar quem se manifestar contrariamente ao homossexualismo – em tese, até mesmo uma pregação religiosa sobre o assunto pode levar seu autor para a cadeia.
O que causa preocupação, além do caráter extremamente subjetivo dos artigos do PL 122/2006, é o rigor das penas cominadas, que podem chegar a até cinco anos de reclusão. Entre as justificativas que Iara utilizou para elaborar o projeto, está o que chamou de “dever de encontrar mecanismos que assegurem os direitos humanos, a dignidade e a cidadania das pessoas, independente de raça, cor, religião, opinião política, sexo ou orientação sexual”. E é justamente esse último item que promete fomentar as discussões. O texto diz ainda: “O que estamos propondo é o fim da discriminação de pessoas que pagam impostos como todos nós. É a garantia de que elas não serão molestadas em seus direitos de cidadania”.

Pressão – Desde a votação do projeto pelos deputados, iniciaram-se diversas manifestações de grupos preocupados com o que sua possível aprovação pode desencadear. O advogado Zenóbio Fonseca, consultor jurídico e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), iniciou uma campanha evangélica de pressão sobre os parlamentares a partir da publicação de seu artigo A Criminalização da Homofobia no Brasil. Foi a deixa para que milhares de pessoas sobrecarregassem as caixas de e-mails e congestionassem as linhas telefônicas de deputados e senadores. Em março de 2007, a senadora Fátima Cleide (PT-RO), indicada para relatar o projeto na Comissão de Direitos Humanos do Senado, solicitou a retirada da matéria da pauta para uma profunda análise antes do relatório final.
Segundo Fonseca, o projeto entra em conflito direto com os princípios irrevogáveis de garantia às liberdade de pensamento, de consciência e de religião estabelecidos no Artigo 5º da Constituição Federal – e isso, segundo o estudioso, já justifica o arquivamento da medida. “As pessoas que pregarem a Bíblia e seus valores éticos, morais, filosóficos ou psicológicos poderão ser enquadrados e penalizados pela lei anti-homofobia”, preocupa-se. Ele se refere aos diversos textos das Escrituras que condenam o comportamento homossexual como pecaminoso diante de Deus. Desde seus primórdios, a Igreja Evangélica, com base nestes escritos, prega que os praticantes da homossexualidade precisam abandoná-la se quiserem a salvação em Jesus. “Estamos a um passo de uma possível perseguição religiosa por expressar a fé e seus valores genuínos”, continua o advogado. Ele lembra que o Conselho Federal de Psicologia já expediu uma norma proibindo os profissionais da área de interferir na mudança de orientação sexual de seus pacientes, mesmo que por solicitação dos próprios. “Já houve até psicólogos sendo processados por isso”, diz. “O papel do profissional ou do conselheiro espiritual é apoiar aqueles que, por si próprios, desejam mudanças em suas vidas”, frisa, por sua vez, a psicóloga Rozangela Alves Justino. Bastante criticada por apoiar os que, voluntariamente, demonstram interesse em deixar a homossexualidade, ela se tornou uma persona non grata pelos movimentos GLBTS (assim designados os grupos de defesa de gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e simpatizantes). “Não há uma terapia própria para pessoas que vivenciam a homossexualidade, e sim para o ser humano”, explica a terapeuta. Rozangela, que é evangélica, se diz contra projetos que venham reconhecer qualquer direito dos homossexuais. “Do ponto de vista bíblico, a homossexualidade é considerada pecado que poderá ser perdoado se houver arrependimento e desejo de mudança por parte do pecador”, comenta.
Em seu artigo publicado no site pontojuridico.com, o promotor de Justiça do Rio Grande do Sul Cláudio da Silva Leiria expressa temor de que a aprovação do PL 122/2006 possa abrir precedentes perigosos. “Quem sabe se o próximo passo não será proibir a utilização da Bíblia, já que, em uma passagem, o apóstolo Paulo recrimina a conduta de homens que se deitam com outros homens?”, desafia. E ele aponta a mídia como grande responsável pela massificação do estilo de vida homossexual. “A causa gay ocupa cada vez mais espaço nos meios de comunicação e nas artes. Há décadas, as telenovelas vêm propagando a ideologia homossexual, solapando valores muito caros à família brasileira e deformando sua opinião”, diz.

Restrição às pregações – “Muitos estão se mobilizando contra o projeto anti-homofobia por perceberem que as implicações, cedo ou tarde, atingirão em cheio sua liberdade de expressar o que a Bíblia diz sobre o homossexualismo”, destaca, por sua vez, o escritor evangélico Júlio Severo, autor do livro O Movimento Homossexual (Editora Betânia). Fato é que, no Congresso Nacional, assim como na sociedade, o assunto rende muita discussão. Parlamentares ligados às igrejas Católica e Evangélica temem que a aprovação do texto, como está, possa acirrar ainda mais o patrulhamento que os críticos do comportamento homossexual têm sofrido. “Não são somente os evangélicos que são contra, mas também os católicos, espíritas, até mesmo os ateus”, aponta o senador Magno Malta.
Para Marcelo Crivella, senador ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, a nova lei pode interferir diretamente no cotidiano das pessoas. Isso porque, segundo ele, a nova lei favorece até mesmo o chamado homoerotismo em público – as expressões físicas de afeto entre pessoas homossexuais. Isso porque o projeto da deputada Iara Bernardi pretende combater qualquer um que reprima a exposição dessa afetividade. Mas uma das maiores preocupações de Crivella, que é um dos encarregados de analisar o projeto, é em relação à restrição das atividades pastorais caso vire lei: “Um sacerdote, seja católico ou evangélico, não pode ser proibido de pregar que o homossexualismo é pecado. E toda igreja deve ter o direito de afastar um padre ou pastor por questões que contrariem seus princípios religiosos”, ressalta.
Silas Malafaia, um dos mais conhecidos pastores do país, se diz bastante preocupado com a possibilidade de enquadramento de pregações com teor crítico à homossexualidade. “Nada tenho contra as pessoas que adotam esse tipo de comportamento, mas não vou parar de pregar que homossexualismo é pecado”, desafia, com seu estilo característico. Ligado à Assembléia de Deus, Malafaia mantém no ar o programa de TV Vitória em Cristo, que tem sido uma tribuna para sua campanha “Diga não!” – o objetivo é incentivar os crentes a se manifestarem contra a aprovação do projeto.
Para o bispo Robinson Cavalcante, da Diocese Anglicano do Recife (PE), os direitos de cidadania dos homossexuais já são suficientemente garantidos pelo ordenamento jurídico vigente no país. Por isso, ele critica a lei anti-homofobia: “Esperamos que os defensores da ética e da instituição familiar, e das diversas religiões, possam se unir e derrotar todos os projetos de leis que sejam uma violência contra a moral, a sanidade pessoal, social e a família”, sentencia. Autor do livro Reforçando as Trincheiras (Editora Vida), que faz uma análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico, o bispo destaca que é fundamental preservar as liberdades filosófica, religiosa e de expressão, inclusive em relação a este tema. “Isso é importante para o bem-comum do país como um todo, e não só para a Igreja”, conclui.

"Facada no cristianismo"

Deputado estadual pelo PTB e primeiro vice-presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, o pastor Waldir Agnello tem acompanhado de perto a polêmica sobre o reconhecimento do homossexualismo na sociedade brasileira. Há pouco mais de um ano, ele foi um dos principais críticos de um espetáculo bizarro – a performance de um transformista em pleno Parlamento paulista –, mas deixa claro que sua postura contrária é amparada pelos princípios cristãos nos quais acredita, sem nenhuma discriminação aos homossexuais ou a qualquer outro grupo. Ministro ordenado pela Igreja do Evangelho Quadrangular, Agnello não tem exercido o pastorado em nenhuma igreja específica em função do mandato parlamentar. Nessa entrevista, ele fala sobre o acirramento da questão homossexual na sociedade e o projeto de lei que visa punir a chamada homofobia:

JDM - Recentemente o senhor apresentou um projeto para a revogação da lei estadual 10.948/01, que pune a discriminação por orientação sexual no Estado de São Paulo. O que tem a falar a respeito?
WALDIR AGNELLO - Ao meu ver, essa lei é inconstitucional, porque estabelece penalidades, sanções, até sob crime, a discriminação aos homossexuais. O ponto que está sendo colocado ai é a sua ilegalidade, compete apenas e tão somente ao Congresso Nacional legislar sobre direito penal e não às assembléias legislativas e nem as câmaras municipais. Para entender como não há nenhum apelo homofóbico nessa atitude, vou tentar traduzir com um exemplo: se um casal de homossexuais estiver num restaurante trocando caricias, e o dono pedir para que não ajam dessa maneira, eles podem ir a uma delegacia e denunciá-lo. Na primeira vez, o proprietário pode ser multado, na segunda a multa triplica e na terceira ele pode até ter o alvará cassado. Agora, se acontecer a mesma situação com um casal de heterossexuais, ele não tem onde reclamar. Portanto, meu pedido de revogação a lei é por estarmos incorrendo em privilégios. Já estamos acobertados pelos direitos civis, não precisamos de outra lei.

De acordo com a bancada evangélica do senado, apesar do número reduzido de cristãos, a lei da homofobia dificilmente será aprovada. O senhor também compactua desse otimismo?
Estou otimista, acho que isso faz muito sentido. Não precisa haver uma lei exclusiva, isso é dar privilegio a uma categoria. Estarão cometendo um grande erro, uma inconstitucionalidade se aprovarem. Acredito que no Senado haverá uma resposta coerente, e a sociedade vai aprender a respeitar o homossexualismo na medida que o homossexualismo aprender a respeitar a sociedade. Essa relação independe de lei, os homossexuais precisam conquistar seu espaço e acho que estão conquistando, tantos que existem muitos adeptos do que ganharam o respeito da sociedade.

Um fato que causou muita polêmica e agitou a Assembléia Legislativa foi a performance de um transformista, organizado pelo deputado Carlos Gianazzi , numa manifestação em defesa da lei da homofobia. Como o senhor reagiu a esse episódio?
Isso foi muito triste para o parlamento paulista, muito desagradável trazerem para a assembléia, uma casa de leis, uma pessoa vestindo calcinha e sutiã. Isso não tem nada a ver com essa pessoa ser homossexual, se fosse uma mulher a minha reação seria a mesma. Aqui dentro eu penso pelos meus valores, convicções e interpretação regimental, tudo que desrespeita nosso regimento, avilta a sociedade e não contribui de nenhuma forma positiva para a imagem do nosso parlamento. Eu teria um grade conflito interior se ficasse omisso, , então eu fiz uma questão de ordem ao presidente apresentando minha indignação e solicitando providências.

E quanto aos demais? Como eles reagiram?
No primeiro momento, a grande maioria não tinha conhecimento do que estava acontecendo, mas a partir do momento em que começaram a ver as imagens, a indignação foi muito grande; até mesmo os que apoiam o movimento homossexual não concordaram com essa atitude.

Esse episódio pode influenciar o Senador na hora da votação da lei da homofobia?
Pode sim influenciar, e não somente no Senado como também no meu projeto de lei estadual. Duas coisas agora acabam quase que se juntando, e eu já estou vendo isso acontecer. Quem perde com isso é o movimento GLBTS porque a sociedade está vendo que esse movimento não pode ser desregrado, não pode querer se insurgir de uma forma a neutralizar ou atravessar os direitos dos outros. Caso contrário, daqui a pouco vamos ter uma outra ração, uma outra etnia, uma classe de privilegiados, e não é essa a proposta.

Considerando a hipótese de aprovação da lei, o que pode trazer de conseqüências para a sociedade e a igreja brasileira?
Digamos que uma abertura muito perigosa, porque o texto dessa lei diz que até materiais escritos contrários aos homossexuais serão passíveis de serem apreendidos. Isso nos remete diretamente à Palavra de Deus, vamos que jogar nossas bíblias fora e editar uma nova, pois ela deixa claro que o homossexualismo está fora do padrão de vida normal estabelecido por Deus. Um pastor vai ter sérias dificuldades de conduzir o culto, e vai ficar sujeito às mesmas sanções que eu simbolizei com o dono do restaurante. Então, para o meio cristão – não só evangélicos, mas os católicos, os presbiterianos, adventistas –, todos terão sérios problemas. A aprovação dessa lei seria ao uma facada muito profunda na história do cristianismo.

Já que o senhor citou os católicos, eles defendem princípios bíblicos diferentes dos evangélicos. Não seria um momento propício de se unirem contra a aprovação da lei?
Com certeza, eu diria que os católicos e os evangélicos somados são a maioria absoluta na sociedade, então uma junção de forças traria um final muito feliz. O movimento de GLBTS pode ficar muito tranqüilo, pois as discriminações, perseguições, espancamentos não partem dos que conhecem os princípios da Palavra de Deus. Eles estão se preocupando com as pessoas erradas, têm que tomar cuidado com as gangues, com os grupos menores que acabam praticando atos violentos contra o próximo, independente de serem homossexuais ou mendigos.

Voltando a questão à atitude do deputado Carlos Gianazzi ao levar uma transformista para a assembléia, o senhor pediu a cassação dele por falta de decoro parlamentar?
Quero que fique bem claro que eu não pedi a cassação dele, mas providências. Providencias. Meu dever de ordem aponta a falha, eu poderia estar levando essa questão direta poro conselho de ética ou corregedoria, no entanto encaminhei para o presidente da assembléia. Se entender que houve excessos, ele vai encaminhar o assunto para esses fóruns, que definirão as penalidades: advertência, suspensão temporária ou cassação do mandato. Não cabe a mim determinar a pena, mas apontar o erro.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 121
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

UMA NOITE DE DORES E LÁGRIMAS

Teto do templo-sede da Igreja Renascer em Cristo desaba em São Paulo, fazendo nove vítimas fatais

José Donizetti Morbidelli

Praticamente dois anos depois do imbróglio envolvendo o casal Estevam e Sônia Hernandes, os fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo – eles foram presos nos Estados Unidos por entrar com dinheiro ilegalmente no país –, os fiéis da denominação sofreram mais um duro golpe no mês passado. E este, de contornos muito mais trágicos. No fim da tarde do dia 19 de janeiro, entre um e outro culto no templo-sede da igreja, no bairro do Cambuci, zona sul de São Paulo, centenas de pessoas foram surpreendidas com o desabamento do teto do imóvel, adaptado de um antigo cinema. Em questão de segundos, o ambiente de espiritualidade se transformou num pandemônio, com pessoas correndo desesperadas sem saber exatamente o que estava acontecendo. Logo, as imediações da Avenida Lins de Vansconcelos, onde fica a sede da igreja, ficou completamente tomada por viaturas de polícia, carros do Corpo de Bombeiros, ambulâncias, profissionais de imprensa e centenas de curiosos. O céu da região – tão diferente daquela pintura azul celeste que decorava as paredes internas do templo – foram tomados por helicópteros. Mas o pior acontecia lá dentro. Sob os escombros, dezenas de pessoas ficaram feridas, algumas de maneira fatal. Até o fechamento desta reportagem, os números oficiais apontavam nove mortos.
Um campo de futebol de terra batida do Parque da Aclimação virou um centro de resgate das vítimas, que iam sendo embarcadas rumo aos hospitais da região central da capital paulista. A tragédia, além de assustar a vizinhança e os transeuntes que passavam pelo local, já no início da noite, mudou completamente a rotina do bairro. De acordo com Norma Cristina Ribeiro, que mora na rua que faz fundos com a igreja, o barulho causado pelo desabamento se assemelhava ao som de um rojão. "Era um estrondo forte, parecido com uma coisa caindo", comparou. Já Sebastiana Silva Gonçalvez, não menos assustada que a vizinha, pensou se tratar da queda de um grande avião, como o Airbus da TAM que se espatifou nas imediações do aeroporto de Congonhas, em julho de 2007 – outro trauma na memória do paulistano. "Foi muito assustador. Os vizinhos saíram correndo para ver o que havia acontecido e começaram a ajudar", conta.
A tragédia, que deixou mais de uma centena de feridos e nove vítimas fatais – todas mulheres, entre elas uma senhora de 80 anos e uma adolescente de 15 –, poderia ter sido ainda maior caso não tivesse acontecido no intervalo entre duas reuniões. Na hora do acidente, às exatas 18h56, muitos fiéis deixavam o local, enquanto outros se preparavam para entrar. A sede da Renascer tem capacidade para abrigar cerca de 2 mil pessoas e, de acordo com os bombeiros e a própria assessoria de imprensa da igreja, cerca de 400 frequentadores se encontravam no interior no momento do desabamento. Precavida contra a possibilidade de desmoronamento das paredes laterais e dos fundos da igreja, o coronel Orlando Camargo, coordenador-geral da Defesa Civil Municipal, achou por bem interditar vários imóveis localizados nas imediações. Assim, os moradores têm contado com a solidariedade dos vizinhos até que suas casas sejam liberadas. Até um estabelecimento comercial que fica ao lado do prédio, de frente para a Lins de Vasconcelos, teve que ser fechado.

"Inconcebível" – Enquanto as eventuais causas do desabamento estão sendo analisadas pelos peritos do Instituto de Criminalística (IC), algumas hipóteses começam a ganhar força. Uma delas, segundo a Defesa Civil, pode ter sido o peso acarretado pela grande quantidade de aparelhos de ar condicionado instalados no teto do prédio. A última reforma realizada na cobertura aconteceu há cerca de dez anos, por determinação do Departamento de Habitação e Urbanismo da Prefeitura. Ainda de acordo com o órgão, na época as exigências foram prontamente adotadas pela direção da denominação, motivo pelo qual o imóvel foi liberado para a realização dos cultos. "Para nós, o desabamento foi uma total surpresa. É inconcebível que um teto reformado em 1998 caia dez anos depois", afirma Mabel Prietto de Souza Tucunduva, promotora da Justiça de Habitação e Urbanismo. Segundo ela, no ano passado, a Renascer apresentou um novo certificado atestando a segurança do local, com base num laudo técnico elaborado por um engenheiro particular e aceito pela Prefeitura.
Ademir Alves do Amaral, superintendente operacional do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo (Crea), também esteve analisando os escombros, mas ainda acha cedo para apontar o que poder ter provocado a tragédia. "São diversas hipóteses: sobrecarga, falha de manutenção, falha de projeto. Estão citando até cupins. Não dá para saber agora, mas pode ser um somatório de fatores", afirma. O engenheiro disse ainda que o Crea vai acompanhar atentamente o trabalho dos peritos da polícia.
Depois da tragédia, o governador do Estado de São Paulo, José Serra, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, estiveram no local. Serra, inclusive, quase foi atingido por um aparelho de ar condicionado que despencou a poucos metros de onde estava. Kassab, no dia seguinte, vistoriou os destroços e reafirmou o compromisso de criar a Secretaria Especial de Controle Urbano, órgão que assumiria as funções do Departamento de Controle e Uso de Imóveis (Contru), atuando na prevenção e fiscalização do uso de edificações na cidade de São Paulo. Só que para ser aprovado, o projeto ainda tem que passar pelo crivo da Câmara Municipal.

Assistência ampla – Consternado, o casal Hernandes – que cumpre pena em prisão domiciliar nos Estados Unidos por crimes de conspiração e contrabando de dinheiro –, emitiu nota sobre a tragédia ocorrida na célula-mãe da igreja, justificando que deve haver algum propósito para tamanho sofrimento dos fiéis. "Foi uma grande fatalidade o que ocorreu. Nosso coração está enlutado, sofrendo muito, pelas vidas, pelas vítimas, pela situação, pela calamidade. Esperamos que Deus possa enxugar nossas lágrimas com milagres", diz o texto. Por muito pouco a filha do casal, Fernanda Hernandes Rasmussen, poderia ter sido mais uma das vítimas da tragédia. Presa ao trânsito, a apresentadora chegou ao templo, com o filho, apenas alguns minutos após o desabamento. Assim como uma legião de voluntários que se encontravam no local, ela foi mais uma a ajudar no socorro às vítimas e orientação aos bombeiros.
Não menos preocupado ficou o jogador de futebol Kaká, o mais ilustre membro da denominação. A cerimônia de casamento do astro da bola foi realizado ali mesmo no templo-sede, em dezembro de 2005. Ao saber da tragédia pela internet, o craque do Milan teria telefonado para saber mais detalhes sobre o acontecimento. De acordo com sua assessoria, nenhum parente ou amigo do atleta ficou ferido. A fidelidade do craque com os princípios bíblicos e a Renascer em Cristo é tão grande que, como forma de agradecimento pelas conquistas pessoais e por ter se livrado do risco de ficar paraplégico após um acidente ocorrido numa piscina aos 18 anos, o jogador chegou a doar à igreja o troféu de Melhor Jogador do Mundo, ganho em 2007. "Quero agradecer a Deus por todas as vitórias e conquistas que tive nesse ano como jogador e trago aqui ao altar dois prêmios: um é meu filho que está chegando, fruto de uma palavra profética que recebi do apóstolo Estevam; outro é esse troféu da Fifa, que quero consagrar a Deus e deixar aqui na igreja", declarou, na época.
Apesar da possibilidade de alguns fiéis recorreram à Justiça visando serem indenizados, a assessoria da Igreja Renascer informou que dará toda assistência às vítimas e suas famílias, custeando as despesas com os funerais, tratamentos hospitalares dos feridos e reparos dos danos ocasionados nos imóveis vizinhos. O advogado criminalista Ademar Guerra não acredita que a igreja venha a ser processada pelas vítimas do desabamento, em virtude do bom relacionamento que existe entre as partes. "Muitos fiéis têm uma ligação afetiva com a igreja e preferem processar a Prefeitura", afirma.

Igreja multimídia – Com mais de 2 milhões de fiéis, números que fazem dela a segunda maior denominação neopentecostal do Brasil, em pouco mais de vinte anos, desde a sua fundação, em 1986, a Igreja Renascer espalhou suas células por uma infinidade de países. Atualmente, estima-se que sejam mais de 1,2 mil templos, distribuídos por todos os estados brasileiros, e ainda América Latina, Estados Unidos, Europa e Japão. Tal crescimento se deve, e muito, às ações perpetradas pela igreja, que tem se consolidado na organização de grandes eventos populares, como a Marcha para Jesus – anualmente, o evento atrai cerca de 2 milhões de pessoas na maior cidade brasileira – e o SOS da Vida, festival musical que também faz parte do calendário evangélico. No segmento musical, o grupo de louvor Renascer Praise é considerado um dos mais importantes da América Latina. Em novembro do ano passado, comemorando o 15º aniversário do ministério, a gravação do álbum Renascer Praise 15 aconteceu na sede da igreja, a mesma que agora não passa de um monte de entulho.
Para levar adiante todos seus projetos de caráter social e eventos evangelísticos, a Igreja Renascer conta com uma estrutura midiática de causar inveja a grandes empresas de comunicação do país. A principal delas é a Rede Gospel, emissora de TV com sede na cidade de São Paulo que transmite programações e eventos relacionados à igreja para todo o Brasil, e via satélite para outros países.
Contudo, apesar de extremamente popular entre o público evangélico, há cerca de dois anos a igreja começou a se tornar conhecida e comentada também por outros motivos, nada espirituais. A prisão de seus líderes, em janeiro de 2007, nos Estados Unidos, deixou a denominação de pernas para o ar. De lá para cá, muita coisa aconteceu na vida do casal Estevam e Sônia, que cumprem pena domiciliar e aguardam autorização da Justiça dos EUA para retornar ao Brasil. Mesmo assim, os cultos realizados na sede da igreja continuavam atraindo milhares de fiéis, pelo menos até a fatídica noite de 19 de janeiro.
A tragédia ocorrida na Renascer da Lins de Vasconcelos teve grande repercussão também no exterior. Na Argentina, o jornal La Nación destacou a fama da igreja por ter sido escolhida para o casamento do jogador Kaká, mesma postura adotada pelo espanhol El Pais. "Kaká, de fortes convicções religiosas, é um fiel colaborador da Renascer. O desportista consagrou seu matrimônio com Caroline Celico na mesma paróquia cujo teto caiu", informou o noticioso madrilenho. Já o norte-americano The New York Times e a rede CNN enfatizaram a quantidade de pessoas que, supostamente, se encontravam no local e os números de vítimas. Mais uma vez, os líderes da denominação tiveram que acompanhar seus nomes pautando notícias dos principais veículos de comunicação do país e do mundo, mas com uma grande diferença: dessa vez, suas fotos não estamparam as páginas policiais.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 131

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

AMISH - JEITO SIMPLES DE SE VIVER

Em pleno século 21, comunidade amish abre mão do conforto da modernidade para manter intactas sua fé e suas tradições

José Donizetti Morbidelli

Eles são mais conhecidos pelas imagens do cinema do que na vida real. Afinal, são extremamente reservados e evitam contatos mais próximos com a sociedade que os cerca. As roupas, conservadoras, são uma de suas marcas – sempre metidos em escuros ternos pretos, com o chapéu obrigatório para os homens e os vestidos compridos e recatados das mulheres. Mesmo com todo o avanço tecnológico e as facilidades do mundo moderno, os amish ainda hoje se abstêm de tudo o que julgam supérfluo para sua sobrevivência. Diversas de suas comunidades no interior dos Estados Unidos ou do Canadá vivem do mesmo jeito que seus antepassados de dois, três séculos atrás. Extremamente religiosos, seu cotidiano divide-se entre o trabalho, quase sempre no campo, os cuidados com a família e as rígidas regras de um cristianismo bem radical nos costumes. Contudo, manter-se fiéis às raízes não quer dizer que eles vivam totalmente estagnados no tempo e que não gozem de muita fartura. Geralmente donos das terras onde vivem e da qual tiram o sustento, os amish têm uma profunda relação com Deus e fazem o possível para seguir à risca sua Palavra. A formação da comunidade amish deve-se à dissidência de um grupo de menonitas que, por volta de 1690, liderados por Jacob Ammann, formou uma nova classe – os anabatistas ou rebatizados. A razão da cizânia foram divergências de cunho litúrgico, como por exemplo o rito da comunhão. Enquanto uma parte defendia a celebração do sacramento uma vez por ano e sem qualquer restrição à presença de gente de fora do grupo, os seguidores de Ammann preferiam comungar pelo menos duas vezes ao ano e defendiam a separação total dos não-adeptos às suas crenças. Assim, formou-se o grupo cristão protestante, e o rebanho de Ammann, cujo princípio fundamental consiste na simplicidade como parâmetro de uniformidade entre os membros, ganhou a América por volta de 1720. Àquela altura, iniciou-se a imigração dos descendentes suíços para o Novo Mundo, especialmente para os estados americanos da Pensilvânia e Ohio, levando na bagagem a herança de uma doutrina reformista e no pensamento os ideais de humildade e desprendimento do mundo material. Tudo o que remetia à idéia de orgulho e vaidade pessoal – hochmut, em alemão –, não fazia parte do cotidiano dos amish mais conservadores.
Até hoje, os chamados da “velha ordem” vivem de maneira extremamente ascética. Automóveis, energia elétrica, televisão, telefone, computador e até mesmo objetos de decoração devem ser evitados. O zelo chega ao ponto de se substituir os botões de casacos por colchetes, para assim se evitar a “vaidade”. Além da Bíblia Sagrada, interpretada de maneira fundamentalista, os amish se regem pela Ordnung, conjunto de tradições que, embora não escritas, define como deve ser a vida, com atenções voltadas exclusivamente para a fé, a família e a comunidade. Contudo, a ordem não se restringe apenas a questões de cunho religioso, mas a tudo que tange ao convívio social do grupo, como por exemplo a aquisição de um novo equipamento agrícola. Mesmo assim, cada novo aparato que chega não pode causar grande impacto e só será aceito pela ordem após uma rigorosa análise e a comprovação definitiva de que não se trata simplesmente de um objeto de desejo de alguém.

Fiéis às tradições – “Ainda existem colônias menonitas que vivem, hoje, preservando as tradições antigas, sem se envolver com a modernidade”, afirma o pastor Gerson Santana de Oliveira, 40 anos, ligado à Aliança Evangélica Menonita (AEM), denominação com presença mais destacada no sul do Brasil. “A exemplo do Ordnung dos amish, os menonitas têm a declaração de fé, que traz as crenças de uma doutrina cristocêntrica e que também serve de programa de ação obediente”, compara. Como os amish não têm templos para as orações, os cultos são realizados nas próprias casas – e, para garantir que nenhuma fique de fora, é realizado uma espécie de rodízio organizado pelos próprios membros da comunidade. Um número excessivo de carroças estacionadas numa manhã qualquer de domingo em frente a uma determinada residência é evidência de cerimônia religiosa. “Eles não vêem necessidade de uma construção específica para os ritos cristãos, uma vez que possuem casas e celeiros espaçosos onde podem abrigar os cultos”, continua o pastor menonita.
A educação também merece especial atenção. Nas escolas, em apenas oito anos de currículo as crianças amish aprendem apenas o que a comunidade julga essencial para enfrentar a vida adulta, como o básico de inglês e alemão, religião e noções de matemática. Ensino superior nem pensar; para que os jovens fossem liberados dos estudos antes de completar a maioridade, os amish se viram forçados a travar uma árdua batalha com os órgãos oficiais dos Estados Unidos até que, em 1972, a Suprema Corte facultou-lhes esse direito. “Para eles, é a Igreja que determina as qualificações, em vez do Estado. Eles simplesmente crêem que uma educação limitada é suficiente para as suas necessidades básicas”, destaca Gerson. “Os amish têm muito a ensinar à sociedade atual, como o uso racional da energia, a ajuda mútua, a simplicidade e o cultivo da terra e seus cuidados”, explica. A vida sentimental dos amish é um capítulo à parte. Geralmente, os futuros casais se conhecem ainda na infância, mesmo que façam parte de distritos diferentes. Os encontros românticos acontecem aos olhos de todos, nos cultos religiosos ou então em eventos de natureza recreativa. Hoje, até se permite aos namorados um mínimo de privacidade, desde que não transgridam regras rígidas de recato e moralidade. O outono, depois das colheitas, é a época preferida para os casamentos. Porém, antes da consumação da união, há uma série de formalidades. O noivo é obrigado a notificar tudo à família da futura mulher e a comunidade precisa ser informada do compromisso. Depois de casados, os homens deixam crescer a barba, mas sem bigodes, já que o adereço é associado às Forças Armadas. Por serem pacifistas, os amish se recusam a prestar o serviço militar.
No filme A Testemunha (Paramount, 1985, direção de Peter Weir), o astro Harrison Ford encarna um policial que se integra a uma comunidade amish para investigar um crime. Rodado numa pequena cidade norte-americana, o filme mostra o choque cultural entre o personagem, habituado à rotina violenta da cidade grande, e o estilo pacato do grupo de homens de preto e mulheres de véu, para quem a justiça só pode ser praticada por Deus. Apesar de elogiado pela crítica na época e de ter conquistado o prêmio de melhor roteiro original em Hollywood, o longa não fez sucesso entre aqueles que deveriam se sentir retratados na telona. Os amish da cidadezinha de Intercourse, na Pensilvânia, que se “atreveram” a assistir ao filme, consideraram-no extremamente liberal e não condizente com seus hábitos e suas crenças. Um das cenas mais criticadas é quando Ford leva uma moça amish pela qual se apaixonara para dançar dentro de um celeiro, ao som de Wonderful World, de Sam Cooke – um evidente absurdo, já que, para qualquer amish cioso de sua fé, músicas mundanas seriam uma evidente afronta ao nome do Senhor.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 126

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

DESAFIANDO GIGANTES - ALEX KENDRICK

Desafiando Gigantes, produzido por uma igreja americana, surpreende pela qualidade e forte conteúdo espiritual

José Donizetti Morbidelli

“O que é impossível para Deus?”, pergunta o treinador. “Nada”, respondem, convictos, os jogadores. O diálogo pode não ser lá muito comum em competições esportivas, mas dá a tônica do filme Desafiando Gigantes (Facing the giants, EUA, 2006, Sony). Recheado de mensagens cristãs, o longa é daqueles trabalhos capazes de encher os crentes de orgulho. Produzido pela Sherwood Baptist Church, em Albany, Estado de Nova York, Desafiando gigantes tem uma proposta claramente evangelística – mas não abre mão da qualidade. Com um orçamento que, para a indústria cinematográfica, não passa de ninharia – 100 mil dólares –, a produção ficou cerca de quatro meses em cartaz em mais de mil cinemas americanos e foi eleito um dos dez melhores filmes esportivos de 2007 pela revista Sports Illustrated. Além disso, foi distribuído para quase 60 países e já arrecadou nada menos que US$ 10 milhões.
O projeto nasceu da certeza, baseada em pesquisas, que o cinema exerce mais influência do que a própria Igreja na sociedade americana. Se o elenco não traz nenhum astro de Hollywood – pelo contrário, é formado por voluntários da própria igreja de Albany –, coube ao roteiro a árdua tarefa de conquistar o público, tendo como foco principal pessoas não despertadas pelo Evangelho. A história é simples. Um técnico de futebol americano chamado Grant Taylor(papel interpretado por Alex Kendrick, que também é o diretor), vê o time que dirige, ligado a uma escola, entrar crise após a saída do principal jogador. A partir daí, a equipe perde toda a auto-estima e motivação para competir. Prestes a entregar os pontos e ainda por cima enfrentando problemas de ordem pessoal, ele recorre a Deus e ao poder da fé, lançando mão de passagens bíblicas e princípios de fé para devolver ao grupo a confiança para vencer.

Censura – Além de igrejas de diferentes denominações e ministérios, escolas americanas e até presídios têm realizado sessões especiais de Desafiando Gigantes. Pudera – o conteúdo espiritual é tão explícito que o filme recebeu o selo PG da Associação de Cinema dos Estados Unidos, órgão responsável por classificar as produções de acordo com a faixa etária a que se destinam. A certificação significa que menores de idade só podem assistir às apresentações públicas acompanhados dos pais ou responsáveis legais. De acordo com Kris Fuhr, vice-presidente de marketing da Provident Films – uma das ramificações da Sony Pictures – , a “censura” se deve às fortes mensagens evangélicas, o que poderia ofender os adeptos de outras crenças religiosas.
No Brasil, Desafiando Gigantes não passou pelos cinemas, mas mesmo assim a repercussão tem sido grande. Em março, a Juventude Batista Capixaba (Jubac), entidade ligada a Convenção Batista do Espírito Santo, realizou, em Vitória, o congresso de adoração Reação Teen 2008, com o tema “desafiando gigantes”, numa alusão à mensagem transmitida pelo longa-metragem. “O que nos chamou a atenção no filme foi a força para superar os desafios, que é um dos valores que pregamos aos nossos membros”, explica Diego Bravin, diretor executivo da Jubac.
Mas não é só entre o público evangélico que a produção da Igreja Batista de Albany tem feito sucesso no Brasil. Apaixonada por cinema, a curitibana Cláudia Cartes encontrou o filme na prateleira da locadora e não resistiu à curiosidade. “Há um forte apelo religioso, mas isso não tira suas qualidades”, ressalta a economista que, apesar de não ser crente, garante que acredita em Deus e que não ficou nem um pouco desapontada com o que viu. “Gostei da história, me emocionei com o filme e o recomendo a todos”, revela.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 123

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU

Um dos maiores massacres da História, a Noite de São Bartolomeu vitimou 100 mil protestantes e teve reflexos sobre a evangelização do Brasil

José Donizetti Morbidelli

Com o advento do Cristianismo, o mundo – mais precisamente, o velho continente europeu – passou por muitas crises de ordem política e social, mas nada se compara ao conflito protagonizado por católicos e protestantes na França, no século 16, em decorrência de divergências entre a nobreza, o clero e a burguesia, agravadas pelo crescimento das correntes protestantes. Seguidores remanescentes de Martinho Lutero (1483-1546), que para contestar os abusos eclesiásticos fixou suas idéias de renovação na porta de uma igreja na Alemanha, iniciando assim a Reforma protestante; e de João Calvino (1509-1564), que fundou a Igreja Reformada e inseriu uma nova maneira de pensar a relação de Deus com a humanidade, foram os personagens de uma revolução religiosa que abalou as estruturas da Igreja Católica. Apesar de divergir do luteranismo em alguns aspectos, o calvinismo teve grande influência para o fortalecimento do pensamento reformista.
Antes da Reforma protestante, o catolicismo – imposto pela força coercitiva – era a religião oficial da Europa. E como autoridade máxima da Igreja Católica, as decisões do papa tinham tanto valor quanto as Escrituras Sagradas. Contudo, uma série de práticas que não condiziam com a atitude dos chamados “representantes de Deus”, como a riqueza material do alto clero, o uso indevido do dinheiro das ofertas e a prática da simonia – comércio de materiais sagrados e venda de cargos eclesiásticos – estava levando o povo à miséria e revoltando as camadas mais baixas da população. Esse descontentamento foi um dos motivos do surgimento de pensamentos reformistas baseados, principalmente, na doutrina de salvação somente pela fé e não pelas práticas cristãs. Por sua vez, o catolicismo ensinava que para alcançar a salvação era necessária a fé e a realização de boas obras estabelecidas pela igreja. Além do mais, os reformistas também julgavam inúteis o trabalho exercido pelos mediadores entre Deus e os fiéis.
Enock da Silva Pessoa, professor do departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre, destaca a importância da ação promovida pelos reformistas: “Um grande número de intelectuais defende a Reforma protestante do século 16 como um marco histórico relevante na luta pelas liberdades democráticas, individuais e coletivas, e o luteranismo alcançou os objetivos de libertação social, política e religiosa, diminuindo a dominação política da Igreja sobre o Estado”, aponta.

Abusos – Os abusos do clero descontentavam também o rei da Inglaterra, Henrique VIII, que rompeu definitivamente as relações com o papa Clemente VII e promoveu a Reforma protestante em seu país. Assim, surgiu a Igreja Anglicana, da qual o monarca tornou-se chefe supremo, exigindo obediência dos súditos sob a pena de morte. Ainda, em solo inglês, fincaram-se os alicerces da Igreja Presbiteriana, também em decorrência de questões político-sociais.
Diante desse quadro, a Igreja Católica viu-se obrigada a tomar providências para manter a ordem e restabelecer seu poder nos principais centros europeus. Se a Reforma teve maior adesão em países com a Alemanha e a Inglaterra, na França – onde o absolutismo era mais radical – a entrada dos reformistas não foi nem um pouco pacífica, o que agravou ainda mais a crise entre as oposições religiosas. Em decorrência desse conflito, surgiram dois partidos políticos, cada um com interesses próprios: do lado dos católicos, o Papista; e, em favor dos protestantes, o Huguenote, expressão depreciativa atribuída pelos católicos franceses. Seguidores de João Calvino – um segmento formado por artesãos, comerciantes e nobres –, eles viviam no oeste e sudoeste francês sob constante ameaça, empenhados em disputas religiosas que se alastraram por várias cidades e culminou na madrugada de 24 de agosto de 1572, quando milhares de calvinistas foram massacrados, num dos episódios mais sangrentos que a História registra. Pegos de surpresa com ataques planejados pela família real e mediante o beneplácito da Igreja Católica, os huguenotes nada puderam fazer além de sucumbir sob as lanças e espadas do exército francês.
Do alto das torres sinos repicavam, nas ruas formavam-se procissões alegradas por cânticos de louvor em agradecimento a Deus pelos extermínio dos “hereges” e pela liquidação dos “malditos”. Em Roma, os sinos também soaram, denotando o contentamento do papa pela vitória dos católicos e da Coroa francesa sobre a corrente protestante, vista como uma peste que colocava em risco a liderança exercida pelo conclave. Até uma moeda comemorativa foi cunhada, além do pontífice encarregar o artista Giorgio Vasari da pintura de um mural celebrando o ocorrido. Por ter ocorrido em 24 de agosto, dia dedicado ao santo católico Bartolomeu, o episódio ficou conhecido como Noite de São Bartolomeu.

Semente – “A Noite de São Bartolomeu evidenciou a rivalidade política dos partidos que usavam a religião como pano de fundo para encobrir outros interesses”, comenta Arthur Prado Netto, pesquisador da Oficina Cinema-História, núcleo ligado ao departamento de História da Universidade Federal da Bahia. O estopim para a carnificina teve como precedente uma série de ligações envolvendo membros da nobreza. A França vivia sob o reinado do jovem Carlos IX, mas quem dava as ordens era sua mãe – Catarina de Médicis – que julgava o filho incapaz de tomar decisões importantes. Para acalmar as hostilidades entre católicos e protestantes, a solução encontrada foi uma aliança, o casamento de sua filha, Margarida de Valois, com o protestante Henri de Navarra, um aspirante ao trono.
O imbróglio começou quando um agente católico tentou assassinar o líder huguenote Gaspard de Coligny a mando da rainha-mãe, por receio da influência que ele exercia sobre o rei. Apesar da tentativa frustrada, o episódio enfureceu os protestantes. Convencido pelos aliados de que, durante a festa de casamento, centenas de calvinistas estariam em Paris tramando uma conspiração para tirar a coroa e a vida do monarca, Carlos IX não teve dúvidas e autorizou o massacre em massa dos supostos conspiradores, inclusive de seu líder. Com a bênção e a absolvição do crime por parte do papa Gregório XIII aos católicos, os ataques continuaram, atingindo as principais cidades do país. As águas dos rios ficaram infestadas por cadáveres insepultos, e o mau cheiro se espalhou pela capital francesa por vários meses. Pela estimativa, quase 100 mil huguenotes foram mortos durante os conflitos. Historicamente, a Noite de São Bartolomeu ficou conhecida como a mais terrível entre as ações diabólicas de todos os tempos. Os sobreviventes ao massacre foram obrigados a largar os pertences e fugir, espalhando-se pela Europa. Em nome da França, então chamada de a “filha predileta da Igreja”, a rainha jurou que, a partir daquele dia, nenhum protestante nasceria naquele solo. A “peste”, segundo a ótica católica, havia sido exterminada – contudo, o episódio foi muito mais além. A partir dali, a teologia reformada espalhou-se pelo mundo. O episódio acabou tendo reflexos diretos sobre o Brasil. Fugindo da França que ardia em perseguições, o primeiro grupo de protestantes a desembarcar em terras brasileiras foi trazido pelo aventureiro Nicolas Durant de Villegagnon em 1557, com o objetivo de fundar uma colônia para os perseguidos. Dois anos mais tarde, aportou por aqui um grupo de apóstolos com missão evangelística, formado na maioria por protestantes. Era a França Antártica, empreitada que acabou não dando certo mas entrou para a História como a primeira tentativa efetiva de evangelização no Brasil, um passo decisivo para que o país chegasse ao século 21 como a segunda maior nação evangélica do mundo.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 118

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

TO VERDENER "MUNDOS SEPARADOS" - NIELS ARDEN OPLEV

O filme dinamarquês To Verdener mostra conflitos de comportamento de uma fiel da Sociedade Torre de Vigia

José Donizetti Morbidelli

O cinema dinamarquês não é lá dos mais conhecidos. Até hoje, o pequeno e próspero país do norte da Europa só legou à história da sétima arte filmes como A Festa de Babette e Pelle, o Conquistador (Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988 e 1989, respectivamente, sendo que o último ainda levou a Palma de Ouro em Cannes), além de algumas fitas de caráter mais cult. Pois agora o país volta a ser manchete com o longa To Verdener (Worlds Apart em inglês, ou Mundos Separados em português), numa aposta um tanto inusitada. Baseado em fatos reais, o filme retrata os conflitos vividos pelos adeptos do movimento religioso Sociedade Torre de Vigia, mais conhecidos como Testemuhas de Jeová.
Considerado sectário pela maioria das igrejas evangélicas, o grupo vive em constante conflito com práticas que considera mundanas, sobretudo na questão dos usos e costumes. Pois é nesse meio que Sara – papel interpretado pela atriz Rosalinde Mynster – se vê dividida entre a fidelidade aos princípios estabelecidos pela doutrina e uma paixão arrebatadora. Acontece que o rapaz em questão, Pilou Asbaek, se não chega a ser um ateu, não deixa também de expor seus pensamentos acerca do que considera ser exagerado em relação a certas práticas religiosas da moça. Para piorar, os pais de Sara passam por uma séria crise conjugal, cabendo a ela – não bastasse os problemas pessoais que já enfrenta – tentar controlar a situação, com base nos princípios de fé ainda não transgredidos pelas descobertas amorosas. Um caldeirão e tanto, não é mesmo?
Quem dirige o filme é o dinamarquês Niels Arden Oplev, cujo nome é mais associado a produções infantis do que a histórias com temáticas religiosas ou dramas familiares como To Verdener – tanto, que ele foi um dos consultores estrangeiros convidados para o Laboratório SESC Rio de Roteiros para Cinema Infantil, evento realizado em São Paulo no mês de setembro. Adultério, preconceito e intolerância são alguns dos temas explorados pelo roteiro, ingredientes suficientes para render muitas discussões.

“Caminhos sem culpa” – A Sociedade Torre de Vigia é a instituição surgida nos Estados Unidos. Os testemunhas de Jeová praticam uma fé baseada em interpretações literais e fundamentalistas de trechos bíblicos. Ao contrário dos evangélicos, eles não consideram a divindade plena de Jesus e acreditam-se mais capacitados espiritualmente para enfrentar os episódios narrados no Apocalipse acerca do fim dos tempos. Um dos pontos mais polêmicos e conhecidos de sua doutrina é a proibição às transfusões de sangue, ainda que o procedimento seja considerado fundamental para salvar a vida do paciente – razão pela qual já moveram e sofreram inúmeros processos judiciais. Todas as decisões organizacionais e doutrinárias relativas ao movimento são tomadas pelo chamado Corpo Dirigente, órgão sediado em Nova Iorque, nos EUA, e considerado por seus adeptos como o único canal de comunicação entre Deus e a humanidade.
“A vida não é um filme, você não entendeu". É fazendo uso dos versos do cantor e compositor Herbert Viana que o professor de história e ex-testemunha de Jeová Jerry Santos Guimarães critica os que esperavam um desfecho mais hollywoodiano – ou o clássico final feliz – para o filme. “Muitos podem não gostar, mas eu acho que a história já vale a pena pelo fato de a personagem se libertar e, finalmente, poder escolher seus caminhos sem culpa”, diz. Atualmente, Jerry é candomblecista e um dos administradores do TJ´s Livres
(www.forum.clickgratis.com.br/tjlivres) – uma espécie de fórum de discussão que reúne relatos e troca de experiências entre ex-adeptos do movimento no Brasil e em Portugal. “Acho que a produção não deve ser analisada apenas como entretenimento, mas como ferramenta a ser utilizada pela dissidência para atingir membros da Torre de Vigia”, comenta.
To Verdener, que ainda não tem data para chegar ao Brasil; estreou no Festival de Berlim no início do ano e já abocanhou o Prêmio Signis no 24º Festival Internacional de Cinema de Tróia – o Festróia –, realizado na cidade de Setúbal, em Portugal. Na opinião do júri, Oplev explora com delicadeza e sensibilidade cinematográfica a escolha entre a fé, a entrega pessoal e o amor. Agora, a mira dos produtores está voltada para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, já que o longa foi um dos escolhidos pela Dinamarca para concorrer a uma das vagas para a final. A cerimônia acontece em março, nos Estados Unidos. Será que a história de conflitos religiosos da jovem Sara terá a mesma consagração de A Festa de Babette e Pelle, o Conquistador, vinte anos depois?

Fonte: Revista Eclésia - Edição 128
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NATAL - ENFEITES, PRESENTES E POLÊMICAS

O Natal, principal celebração dos cristãos, não é unanimidade entre os evangélicos


José Donizetti Morbidelli

Árvore de Natal, presépio, guirlanda, luzes piscantes... Você já imaginou como seria o Natal sem eles? Fim de ano é época de enfeitar casas e lojas e entrar no tal espírito natalino, que enche corações e mentes nessa época. Principal festa da cristandade, o nascimento de Cristo tem muitas formas, e foi adquirindo características diferentes em cada sociedade onde é celebrado. Mas o que é unanimidade entre as pessoas em geral gera algumas controvérsias no segmento evangélico. Não são todos os crentes que festejam o Natal – e muitos dos reticentes argumentam que todos esses adereços têm origem pagã, sendo impróprias, contudo, para uso em igrejas e lares cristãos. Por outro lado, muita gente argumenta que o Natal não é mencionado nas Escrituras, restando controvérsias até mesmo acerca da data do nascimento do Filho de Deus na terra. Consumismo, bebedeiras e outros exageros nos festejos são motivos mais do que suficientes para que muitos evangélicos prefiram manter-se à parte do clima natalino.
A bem da verdade, é preciso lembrar que o Natal que hoje conhecemos teve origem num festejo pagão, o do nascimento do Sol. Veio daí o mitraismo, espécie de culto instituído a partir do ano 274 pelo imperador romano Aureliano para fazer frente a uma festividade que já fazia parte do calendário cristão. A basear-se por teorias históricas, o argumento de determinados grupos de evangélicos em relação à “descristianização” do Natal é completamente desprovido. Contudo, há outros argumentos usados para tirar da data a importância que lhe é atribuída. Com o rigoroso inverno da Judéia, no mês de dezembro, os pastores costumavam, principalmente à noite, recolher seus rebanhos para as estribarias, a fim de protegê-los do frio. Logo, não poderiam estar em vigília nos campos, ao ar livre, conforme descreve o evangelho de Lucas 2.8-13.
De acordo com Joaquim de Andrade, professor de teologia e pastor da Igreja Missionária Evangélica Maranata na Tijuca, Rio de Janeiro, controvérsias em relação à data exata em que Jesus nasceu não invalidam o propósito do Natal. “O que importa é o propósito, não a data”, acredita o religioso, que também é apologista e presidente do Centro Religioso de Estudos e Informações Apologéticas (Creia). Para Andrade, são vários os motivos que, na opinião de alguns crentes, contribuem para a rejeição aos festejos natalinos, principalmente em relação à figura do chamado Bom Velhinho. “Papai Noel é um personagem místico com atributos divinos, incluindo onisciência e onipotência”, descreve. “Ele distrai a atenção de Cristo no Natal. As crianças perdem a fé nos pais quando descobrem que ele não é real, e sua presença ainda as ensina a serem materialistas”, enumera.
Contudo, o pesquisador defende que, independente das objeções impostas ao gorducho de roupa vermelha, é perfeitamente possível a celebração da data sem sua simbólica presença. “Retire Papai Noel e o Natal permanece intacto. No entanto, retire Cristo – e tudo que sobra é uma festa pagã”.

“Jesus não nasceu” – Se o tradicional pinheirinho é um adereço quase obrigatório nos ambientes familiares no mês de dezembro, crentes de diversos segmentos denominacionais o rejeitam, associando-o ao objeto descrito no livro do profeta Jeremias, cujos versículos 10.3-4 dizem o seguinte: “Pois os costumes dos povos são vaidades; corta-se do bosque um madeiro e se lavra com machado pelas mãos do artífice. Com prata e com ouro o enfeitam; com pregos e com martelos o firmam, para que não se movam”. “Certamente há uma semelhança entre a coisa descrita e a árvore de Natal; no entanto, semelhança não é igual a identidade”, pondera o pastor Joaquim de Andrade, defendendo a tese de que profeta se referia a um ídolo – a representação de um falso deus.
“Jesus não nasceu, ele é eterno, tomou carne sobre si e veio ao mundo para cumprir seu propósito de salvar o homem e levá-lo consigo para a eternidade. Por isso, respeito mas não comemoro o Natal”, comenta Ana Lúcia Barone de Santana, que é membro da Comunidade Evangélica em Vila Nova Cachoeirinha, bairro da zona norte de São Paulo. Embora concorde com o teólogo acerca do risco das interpretações literais das Escrituras – “Não podemos isolar um versículo do contexto bíblico” –, ela prefere passar o Natal longe de tudo aquilo que, para a maioria das pessoas, é a própria essência da festa: os enfeites, festas e presentes. De qualquer forma... feliz Natal a todos!

A trajetória de um mito

Conta-se que Nicolau foi um religioso muito querido pelos cristãos de seu tempo, por volta do século 4 da Era Cristã. Diz a tradição que ele era muito generoso, e tinha o costume de dar pequenos presentes às crianças carentes. Sua fama correu e, pelos milagres que lhe foram atribuídos, foi nomeado bispo da cidade de Mira, na Ásia Menor (hoje, a região compreendida pela Turquia). Após sua morte, a figura de Nicolau conquistou devotos. Além de artistas medievais que o reproduziam em suas artes, até o imperador romano Justianiano I rendeu-lhe homenagens, construindo uma igreja no século 6 em Constantinopla – atual Istambul, capital da Turquia. Com a Reforma Protestante, o culto a São Nicolau praticamente minguou na Europa, restringindo-se somente à Holanda, tradição essa que os colonizadores levaram para a América no século 17. Em pouco tempo, o mito do Sinterklaas holandês conquistou os americanos, que começaram a chamá-lo de Santa Claus. Numa estratégia de marketing para conquistar o público infantil, a gigante dos refrigerantes Coca-Cola contratou cartunistas para dar novas feições ao personagem por volta dos anos 1930. O Papai Noel, como é conhecido hoje, com sua roupa vermelha e branca – alusiva às cores da empresa –, bochechas rosadas e pinta de vovô gentil, surgiu a partir dos esboços de um artista sueco chamado Haddon Sundblon. Detalhe – conta-se que o desenhista era um beberrão inveterado.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 129
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