Obra do escritor Emir Sader aponta o capitalismo como o responsável pelos conflitos desencadeados entre as nações do mundo
José Donizetti Morbidelli
No livro Século XX – Uma Biografia Não Autorizada – O Século do Imperialismo (Editora Fundação Perseu Abramo), Emir Sader apresenta uma retrospectiva política do século XX, apontando o capitalismo como o maior responsável pelas crises e conflitos que marcaram o período, e a hegemonia de alguns países imperialistas em detrimento dos menos afortunados. Compara ainda os reflexos do capitalismo e do socialismo, representados respectivamente pela Inglaterra após a Revolução Industrial e Estados Unidos, e pela União Soviética após a Revolução Russa.
É a partir do conflito dos ingleses contra a África do Sul (Bóeres) e a China (Boxers) que o autor inicia a viagem histórica pelo século. O sucesso nas batalhas permitiu à Inglaterra impor sua cultura naqueles países, mesmo tendo se criado um preconceito exacerbado, principalmente em relação à África do Sul, onde a maioria da população é de etnia negra. Diferentemente do colonialismo da época das grandes navegações, a Inglaterra valeu-se do imperialismo, ou seja, a conquista de novos territórios por meio de invasões e força coercitiva. É esse imperialismo que vai marcar grande parte do século.
Com a ascensão dos Estados Unidos, a Inglaterra apresentou uma decadência, e os norte-americanos passaram a influenciar todo o mundo por meio de sua cultura de dominação. O êxito do capitalismo propiciou o surgimento de ideologias políticas de oposição – o socialismo – que, embora tenha se originado das idéias de Karl Marx, agiu com maior clarividência a partir da Revolução Russa de 1917. A revolução, que teve como principal dirigente bolchevique Lênin, foi tão importante que resultou num crescimento incontestável da economia russa. A nova União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) confirmou-se como o maior centro socialista do mundo contemporâneo. Mesmo com a morte de Lênin em 1924 e a sucessão de Josef Stalin, o país continuou com o regime. Com o final da 2ª Guerra Mundial e o triunfo da Revolução Chinesa em 1949, a União Soviética passou a ser reconhecida como potência mundial, juntamente com os Estados Unidos e a Inglaterra. Iniciava-se o período denominado de “Guerra Fria”, com os ideais socialistas defendidos pelos soviéticos batendo de frente com o capitalismo norte-americano. O planeta, nitidamente, dividia-se em dois blocos antagônicos, e as divergências entre os Estados Unidos e a União Soviética iriam gerar diversos focos de conflitos pelo mundo, como forma de cada um ampliar seu poder e difundir seus ideais políticos. Até o espaço tornou-se um campo a ser explorado, e o sucesso da corrida espacial permitiria ao país conquistador a ascensão e o reconhecimento tecnológico no planeta. Por fim, o capitalismo sagrou-se vencedor, tendo como importante precedente a crise ocorrida no Leste Europeu, onde a maioria dos países adotavam o regime socialista. A queda do muro de Berlim, reunificando a Alemanha, dividida politicamente desde 1949, foi um marco histórico importante na vitória do capitalismo frente ao socialismo. A abertura política e a independência das ex-repúblicas socialistas extinguiram com a União Soviética, já no governo de Boris Yeltsin em 1991. Entretanto foi durante o governo de Gorbachev que a Guerra Fria chegou ao fim. Atualmente apenas dois países ainda são governados sob regime socialista: Cuba e Coréia do Norte. Anteriormente à Guerra Fria, também houve a ascensão alemã que, por intermédio de um regime ditador – nazismo de Adolf Hitler – impôs seu domínio a grande parte da Europa.
O domínio exercido por alguns países desencadeou uma grande crise social nos países que compõem o bloco do “terceiro mundo”. A irregularidade da distribuição de renda é um dos maiores exemplos dessa discrepância entre os que dominam e os dominados. A liberdade política e econômica dos países emergentes tornou-se utópica, uma vez que ficaram à mercê dos poderosos. No caso específico da América Latina, o domínio norte-americano se expressou de forma mais direta a partir da vitória na guerra contra a Espanha em 1898, possibilitando a intervenção na região caribenha (Cuba, Porto Rico, Filipinas e Ilhas Gwam). Com o tempo, a hegemonia dos Estados Unidos também influenciou os costumes, a política e a economia dos países que compõem o continente sul-americano.
As revoluções ocorridas na América Latina, principalmente a Cubana de 1959, tornou o país um foco socialista no continente, aderindo-se à União Soviética e se libertando do jugo norte-americano. Se por um lado a ilha de Fidel Castro prosperou, por outro estagnou. Che Guevara, o maior líder da Revolução Cubana, morreu sem realizar o sonho de construir um centro de coordenação dos movimentos revolucionários, que começavam a surgir no continente latino-americano. Contudo, sua mensagem e imagem o tornaram um símbolo de rebeldia e da luta por uma sociedade mais justa.
O século XX pode, portanto, der definido como o “século das guerras” ou ainda contado como a “história do capitalismo norte-americano”. Mas será que o capitalismo representa o regime ideal? Apresenta suas falhas, partindo do princípio que mais de dois séculos não foram suficientes para se conquistar a liberdade, igualdade e fraternidade. Para a indústria bélica norte-americana, as guerras são sempre um grande atrativo, pois o país detém mais de 40% da produção mundial.
Os conflitos do final do século apenas confirmaram o poderio de fogo inquestionável dos Estados Unidos. Com a hegemonia mundial ameaçada, a economia e sistema de defesa abalados, os norte-americanos trataram logo de se impor e a guerra contra o terrorismo ganhou grande notoriedade. A manipulação da opinião pública os levou à condição de vítima, o que não condiz com a realidade. Talvez essa seja a estratégia, distorcer os fatos com o propósito de persuadir a população mundial. Embora seja uma atitude que causa indignação, não se pode negar que é uma campanha de marketing muito bem elaborada.
Recanto das Letras - 2006 (http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/96427)
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Natural de Minas Gerais, José Donizetti Morbidelli é jornalista e escritor. Além de artigos para jornais, revista e sites, escreveu Avenida São João: Apogeu e Decadência, livro-reportagem que mostra as fases antagônicas de uma das principais avenidas da capital paulista, A Vida na Ponta dos Pés, biografia do bailarino Peter Hayden, prefaciado pela atriz Irene Ravache; e o roteiro Fúria e Redenção. É também produtor editorial e possui experiência da área de assessoria de imprensa e comunicação.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
O ESTRANGEIRO - ALBERT CAMUS
Numa de suas principais obras, o escritor franco-argelino Albert Camus faz do existencialismo a razão máxima de sua existência José Donizetti Morbidelli
“Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.”
Essa frase traduz perfeitamente a exploração do absurdo, conceito que caracterizou o escritor Albert Camus. O personagem principal do romance mergulha num mundo sem emoções e sentimentos, e é a carência de sensibilidade que se transformará na própria arma que o tornará vítima da justiça. Entretanto, nem mesmo a máquina judiciária o fará mudar de comportamento.
A obra de Albert Camus surge para tentar contrariar o conceito de que a arte é a manifestação dos sentimentos do ser humano. A inexistência de emoções leva o personagem a um vazio interior, causando uma profunda resignação no leitor. É impossível não sentir um mal-estar diante dessa frieza. Contudo, analisando a obra pelo lado do realizador e não na visão do personagem, é incrivelmente bem sucedida a maneira de conduzir o leitor a uma reflexão existencialista da vida. Resumindo, Albert Camus é um verdadeiro artista na concepção da palavra por mexer com os sentimentos do leitor, mesmo que esses sentimentos sejam de total repugno diante da leitura.
Mersault, o personagem central, jamais seria um artista pelo fato de ser totalmente dominado por um vazio, por uma crise existencial que ultrapassa as fronteiras da compreensão humana. Desde a notificação da morte da mãe, passando por um ato homicida até a confirmação da condenação, ele age da mesma maneira. Essa indiferença não se faz presente somente nesses fatos, os mais importantes dentro da trama, mas também em outras situações elementares e relacionamentos de menores relevâncias. O absurdo existencial do personagem procura conduzir o leitor a uma identificação com essa experiência, a mergulhar num mar vazio, onde a essência da vida é simplesmente viver. Por outro lado, a análise do trabalho como “arte” reside na capacidade de modificar o comportamento do leitor, ou o mesmo se adere à crise existencial ou repudia a conduta, repúdio que poderá comprometer a própria relação com o autor.
Talvez seja esse conflito que Albert Camus queira estabelecer em nossas vidas, a visão de que somos nada mais do que simples animais irracionais em nossa singela existência, que a morte nada mais é do que uma conseqüência natural da vida, e que os sentimentos e a racionalidade não podem prevalecer diante de qualquer circunstância.
Recanto das Letras - 2005 (http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/86593)
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO - SIGMUND FREUD
Escrito na década de 1930, até hoje livro de Sigmund Freud mantém vivas as idéias e fundamentos do pai da psicanáliseJosé Donizetti Morbidelli
O Mal-Estar na Civilização, escrito por Sigmund Freud em 1929, apresenta como idéia principal a discussão da repressão que é imposta pela sociedade. Nesse meio social repressivo ao qual o autor se refere, cada indivíduo está exposto a uma espécie de policiamento, e essa alienação diante das regras inibe o desenvolvimento do ser humano. Como o instinto humano é, naturalmente, agressivo, ao se libertar desse sistema repressivo, a tendência é a destruição do meio em que vive. O desenvolvimento do indivíduo, bem como da civilização da qual faz parte, somente são possíveis a partir do controle das pressões impostas ao homem.
A vida de cada um é regida por dois princípios que se conflitam, o princípio do prazer e o princípio da realidade, que também podem ser chamados de instinto de vida e instinto de morte. Enquanto que o instinto de vida tem como fundamento interagir na civilização de forma a aproximar os indivíduos, trabalhando em favor da vida comunitária, o instinto de morte age de forma oposta, ou seja, contra a civilização. Por encontrar-se alienado ao meio em que pertence, diante das imposições de uma sociedade repressiva, e sem a possibilidade de um ambiente que permita a total liberdade, o ser humano não encontra possibilidades de concretização da felicidade, entendida como a liberação das energias instintivas. Nada supera a felicidade em seu âmago, contudo a plenitude não existe, somente alguns momentos de satisfação temporária, conseqüência dos impulsos, sobretudo sexuais. Embora seja um animal racional, essa característica instintiva aproxima o homem de qualquer outra espécie, independente da escala a que pertença.
Diante do conflito que se estabelece entre o princípio do prazer e o princípio da realidade, várias análises podem ser consideradas, e a principal é a relação existente entre o amor, cujo poder induz ao indivíduo a necessidade de não querer privar-se do objeto de desejo, e a dor, ou seja, sensação desagradável causada principalmente em virtude da não concretização de uma relação interpessoal. Enquanto que o amor é visto como instinto de vida e se manifesta, sobretudo pelo desejo e pela afloração da sexualidade, a dor enquadra-se no que Freud chama de princípio de morte, ou pelas manifestações da agressividade decorrentes da insatisfação e da incapacidade de concretização do amor.
O amor é uma das formas mais eficientes para a realização dos desejos, e a ausência de uma relação ou a insatisfação do desejo conduz à dor. Freud refere-se à dor basicamente como sentimento moral em vez de físico, a qual origina-se no próprio corpo e pode ser combatida pela química. Analisada como uma sensação ligada à moralidade e à busca da felicidade, Freud explica a proveniência da dor como reflexo das relações entre os indivíduos, sejam de caráter apenas afetivo ou tomadas por impulsos sexuais, e é justamente esse tipo de dor que tem a maior capacidade de ferir e atingir o ego do indivíduo. Como “remédio”, ou melhor, saída para a dor, aponta algumas alternativas: a desistência do desejo, a procura de algum prazer alternativo que possa saciar essa ausência, e ainda a fuga da realidade por meio da loucura, a criação de um universo íntimo, que pode também acarretar no uso de drogas como meio de evasão desse sofrimento.
Herbert Marcuse, um dos mais importantes estudiosos da obra de Freud, herdeiro das idéias marxistas e integrante da Escola de Frankfurt, escreveu trinta anos depois Eros e Civilização, no qual aprofunda os conceitos freudianos, principalmente em relação às repressões impostas pela sociedade e pelas diferenças entre princípio de prazer e princípio de realidade. Marcuse pensava na possibilidade de liberdade, contudo defendia um sistema com um mínimo de controle para manter uma harmonia social. O homem tende a se tornar mais agressivo à medida que seus impulsos são controlados. Para se chegar a essa conclusão, Freud e Marcuse utilizaram-se de caminhos diferenciados, porém ambos defendiam a idéia de contenção da agressividade por meio da diminuição da repressão e fortalecimento dos impulsos sexuais do ser humano.
Marcuse encontra ainda na obra de Freud uma hipótese de se criar por meio da psicanálise uma nova utopia, analisando conceitos históricos e sociais, e tentando aproximá-los às heranças marxistas, que embora colocadas em segundo plano em virtude da ascensão capitalista, ainda fazia parte de seus ideais.
Recanto das Letras - 2005 (http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/86603) Participe da comunidade no orkut ( Eu Li JD Morbidelli ):http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=11523076
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