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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

KOYAANISQATSI - GODFREY REGGIO

Por trás de um título complicado, documentário se supera com imagens belas e delirantes de um mundo em decomposição

José Donizetti Morbidelli

“Desenterrando coisas valiosas, estaremos chamando a desgraça. Aproximando-se o dia de purificação, o céu encobrir-se-á de teias de aranha. Um vazo cheio de cinzas poderá cair do céu; poderá queimar a terra, e agitar os mares.”
Estará o homem diante de uma visão apocalíptica, que poria um fim ao caos que domina o mundo?
Fazendo uma análise da evolução do homem na terra, desde os primórdios da existência - ainda na Pré-História - até a atualidade, a pergunta que fica é a seguinte: para onde essa evolução irá conduzir o ser humano? Koyaanisqatsi é como uma síntese da existência do mundo, desde quando o homem era apenas um elementar ser vivo, quando não havia a preocupação ou a ganância da conquista de territórios, distante da ambição material e da mesquinhez que resultou no caos que se vê atualmente. Não se trata de uma crítica à evolução tecnológica, mas um alerta sobre o destino da humanidade. As guerras surgiram para medir forças entre as nações, para incentivar a indústria e a tecnologia visando a autodefesa.
Mas defender quem e do quê?
Defender o homem do próprio homem.
Pode parecer hipotético um comentário assim dentro da escala animal, mas o maior inimigo do ser humano tornou-se o próprio ser humano. Essa ambição coloca em risco a vida do planeta como um todo, que não pertence ao homem uma vez que ele é apenas um elemento integrante do meio.
O início lento do filme apresenta imagens do mundo natural, livre da ocupação humana, o que leva o telespectador a se deliciar com o fantástico planeta azul. O ritmo cadenciado não prenuncia uma sucessão de imagens fortes, com o poder da chamada civilização transformando a paz em desordem. Os detalhes da ocupação e do domínio humano são apresentados sem nenhum pudor. A tecnologia, as cidades, a correria, os símbolos do poder capitalista traduzem um conjunto de desunião e rivalidade, evidenciada principalmente quando nos tornamos testemunhas de explosões e depredações, maiores exemplo da destruição humana.
O espetáculo visual transforma-se de forma negativa e a aceleração do ritmo acompanha o compasso, até a música cadenciar novamente, como se fosse a única força capaz de restabelecer a ordem. Entretanto, o maior exemplo da ganância do homem está na tentativa da conquista do espaço. As consequências são catastróficas e o que se observa é mais uma explosão, talvez um castigo pela ocupação de um território acima de seu poderio. Seria o poder divino alertando o homem para que se coloque no seu devido lugar, em vez de brincar de imitar o Criador?

Recanto das Letras - 2005 (http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdefilmes/86601)

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS - MARCELO MASAGÃO

Com música melancólica e penetrante, documentário faz uma retrospectiva do século 20, marcado por guerras, tecnologia e insanidades

José Donizetti Morbidelli

Ao iniciar o relato visual da história de seus personagens, o autor utiliza-se de imagens de sepulturas, e ao concluir o trabalho faz com que o telespectador perceba o significado do título do filme. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos sugere que a morte iguala a todos, que o homem veio do pó e ao pó retornará, independente de seus feitos no decorrer da vida.
Numa espécie de retrospectiva poética do século 20, Marcelo Masagão antecipa a comparação entre os seres humanos, procurando relatar com o mesmo grau de importância a vida de celebridades, como o bailarino Nijinski, o ator Fred Astaire e o jogador de futebol Garrincha, com pessoas absolutamente comuns, como uma empacotadora de cigarros, trabalhadores industriais e garimpeiros de Serra Pelada. Assim, busca uma conscientização do telespectador da importância de cada indivíduo para a história. Todos se completam e são totalmente dependentes entre si.
O filme não se restringe somente a uma retrospectiva, mas também à busca incessante dos sonhos e ideais do ser humano. Alguns limitam-se à simples questão da sobrevivência, como operários que trabalham em indústrias automobilísticas mas que jamais tiveram condições de possuir um automóvel. Outros comprovam a onipotência humana, como o pintor com a roupa especial para encontrar-se com Deus, ou ainda o alfaiate francês imitando um pássaro e lançando-se da Torre Eiffel, imagem que se funde com a explosão de um ônibus espacial americano. Torna-se explícito o egoísmo humano, o desejo de conquistar o inconquistável e, por meio de sobreposição de imagens, o telespectador é direcionado a conhecer o pensamento dos personagens.
“Os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens.”
Infelizmente a irracionalidade das guerras não deixa de fazer parte das imagens do século, a vaidade humana em busca de poder e glória. Digo “irracionalidade” porque as guerras são iniciadas por aqueles que nunca carregaram um fuzil ou explodiram uma bomba na cabeça de outro, homens que ficam em seus escritórios ventilados no verão e aquecidos no inverno, com a barriga cheia, contando as baixas do exército inimigo ou encaminhando os mortos a seus parentes, achando ainda que fazem um grande serviço: aqui vai um herói, que perdeu a vida lutando bravamente pela liberdade do mundo. Os versos do soldado Kato Matsuda, morto em 1945, representam com dignidade essa visão do absurdo das batalhas.
“Papai, mamãe, me desculpem
por ser um filho ingrato.
Não há pior desgraça
do que um filho morrer antes dos pais,
isso foge à ordemnatural das coisas.
No meu silêncio já refleti muito
sobre o sentido e a finalidade
desta guerra. Mas estar aí junto a vocês
seria uma grande humilhação...”
E a tela continua sendo bombardeada com imagens que resgatam a memória do século, com uma melancolia ressaltada pela trilha sonora, mas também com momentos que sugerem um certo otimismo em relação ao futuro. A busca da felicidade é o objetivo que melhor traduz o que deveria ser a essência da existência humana, mas será que a felicidade existe?
“Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.”

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

ANÁLISE DO FILME 1984 CONFORME A INDÚSTRIA CULTURAL DE T.W. ADORNO

Adaptado para o cinema, obra clássica de George Orwell faz alusão ao partido do ditador soviético Joseph Stalin

José Donizetti Morbidelli

Adaptação cinematográfica do livro 1984, escrito por George Orwell em 1948 e que discute a dominação das massas por um regime autoritário e ditador. O poder adultera a mente das pessoas, e a única alternativa é aceitar e jurar lealdade ao partido. O sistema é imutável, e tudo o que desviar a atenção ou comprometer essa relação entre o domínio exercido sobre a massa, tem que ser combatido. Críticas, revoluções e questionamentos que interfiram na sociedade são encarados como patologia social – concepção positivista.
A propriedade fundamental da indústria cultural, segundo T. W. Adorno, é impor uma ideologia às massas, desviando as atenções da realidade no sentido de se configurar uma cultura de dominação. O consumidor torna-se, portanto, um mero elemento dentro de sistema e, de forma inconsciente, adere ao que lhe é imposto. Contudo, a indústria cultural não teria condições de prosperar sem a existência das massas.
Todos fazem parte de um determinado regime, assim como no filme em análise, apesar do meio social atual não ser tão pragmático a ponto de privar o ser humano da liberdade de pensamento, emoções e outros prazeres citados no longa metragem. Há de ser analisada a ideologia de ambos que, guardada as devidas proporções, constituem-se da mesma essência: o caráter de dominação.
Como exemplo dessa dominação, novas línguas e códigos são criados, e todos são obrigados a se adaptarem às linguagens que são determinadas. No filme, a menção da Nova Língua – 10º Dicionário – indica perfeitamente essa imposição do código. A história é apagada, palavras são destruídas e outras são criadas, de forma que não instiguem o pensamento. O código busca uma linguagem perfeita, e quando todos o conhecerem não haverá mais necessidade de disciplinas. É o imperativo categórico da indústria cultural, que isenta a condição do indivíduo pensar o mundo a sua volta. O medo constitui um dos principais motivos da aceitação do sistema, torna-se explícito que qualquer um que infringir a lei deverá ser punido. Na ficção por meio de torturas e lavagem cerebral e, na realidade, por persistência.
A mente é treinada ainda para perceber uma realidade do mundo que, na verdade, não existe. A própria guerra é uma ilusão, o inimigo não é real. Pensar o mundo a sua volta constitui crime, o que o sistema impõe é uma aparência de mundo sob absoluto controle, com as coisas funcionando perfeitamente. A indústria cultural desperta a mesma sensação de conforto. As indicações estatísticas da diminuição e controle das doenças indicam essa falsa realidade. As cenas em que o personagem central Winston (John Hurt), após ser persuadido a aceitar o regime, diz estar curado e revela seu amor ao Grande Irmão, prova esse caráter de dominação que qualquer regime ditador é capaz de estabelecer. Assim também é a indústria cultural, que reorienta as massas, definindo padrões de comportamento, mas que ainda permite a liberdade de dizer que dois mais dois são cinco.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

TEMPOS MODERNOS - CHARLES CHAPLIN

Chaplin, um dos maiores mitos do cinema, critica a sociedade capitalista em Tempos Modernos

José Donizetti Morbidelli

O filme de Charles Chaplin é o retrato da sociedade capitalista que começava a se desenhar na Europa a partir do século XVIII, mais precisamente após a Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra. A busca desenfreada pelo lucro é criticada de forma irônica por um dos maiores gênios que o cinema conheceu ao longo da história. Uma passagem significativa que aponta essa característica de produção é o momento em que o personagem trabalha de forma contínua e ininterrupta diante de uma esteira, tornando-se uma parte integrante da máquina, tanto que, ao encerrar o turno, continua com a mente voltada para os movimentos do trabalho. O cinema confirma-se então como uma nova manifestação artística, a “sétima arte”, e seu surgimento está estritamente ligado à evolução da fotografia. No princípio, o maior desafio do homem era transformar em imagens palpáveis aquilo que os olhos testemunhavam, e a partir daí “aprisionar o fantasma do movimento”, como fizeram os precursores irmãos Lumière. De volta a Chaplin, a história do cinema seria incompleta sem sua existência, sem a magia de fazer rir e chorar apenas com a expressão corporal e a fisionomia de um humilde cidadão.
A partir da intensificação da produção industrial a arte vai passar por uma mudança de conceito. As reproduções em série elevou o conceito artístico em relação à originalidade, e as artes passaram a ser cultuadas nos museus. Por outro lado, os objetos reproduzidos e que não eram tidos como obras de arte, permitiram que o povo estreitasse a relação com o artista. A reprodução industrial em série possibilidade que o cidadão comum decore a parede de sua sala com trabalhos de artistas de sua prefêrencia, mesmo porque a maioria dos originais pertence a acervos de museus e universidades, e têm uma valorização muito distante do poderio financeiro do grande público.
Ao traçar um paralelo entre o cinema e a reprodução da arte em série, compete apontar que o primeiro é a maior manifestação dessa nova característica industrial, que incorpora a tecnologia para atingir um grande público. A evolução tem que continuar sempre, mas os artistas que conquistaram esse espaço jamais deixarão de ser enaltecidos. Não somente os pintores e escultores renascentistas e outras tendências, mas também o ilustre Charles Chaplin com seu célebre personagem “Carlitos”, um dos maiores artistas que o mundo contemporâneo teve o privilégio de conhecer.

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